Essa é uma pergunta muito complicada… E mostra o quão insegura a pessoa está para tomar as próprias decisões e/ou o quão desconectada está dos sinais do seu próprio corpo. Mostra o quanto ela perdeu a referência de quantidade versus nível de fome. É quase como perguntar: Doutor, quanto de xixi eu posso fazer por vez, e quantas vezes ao dia? Quantas horas de sono posso dormir, são seguidas ou divididas?

Pessoas que perguntam isso na maior parte das vezes já passaram por inúmeras dietas, receberam inúmeras orientações externas (de profissionais) sobre o que comer, quanto e quando, e agora não conseguem mais tomar decisões sozinhas, têm medo de comer demais ou perderam completamente a referência do que seria uma quantidade suficiente/adequada. Acabaram incorporando uma das características do que chamamos de “mentalidade de dieta”.

Agora, pare para pensar: se você segue uma prescrição de dieta pré determinada por outra pessoa (o profissional), você já acorda de manhã sabendo o quanto poderá comer de cada coisa em cada horário, seja de 3-3 horas, ou quantas horas em jejum. Como o profissional vai saber o quanto de fome você estará em cada dia ou horário? É bizarro, não acha? A dieta prescrita pode causar alguns problemas:

  1. Vai acontecer várias vezes de a fome não estar compatível com a quantidade de comida prescrita, por que a nossa fome não é igual todos os dias, e isso é normal. Então, terá dias em que a pessoa vai comer mesmo sem estar com fome por que estava prescrito, e terá dias que a pessoa ficará com fome por que a quantidade prescrita não foi suficiente.
  2. Vai trazer muita ansiedade, por que além de já acordar sabendo tudo o que poderá comer no café da manhã, almoço, lanches e jantar, não saberá se passará fome ou não naquele dia.
  3. Também vai acontecer de a pessoa se obrigar a comer alimentos e preparos que ela não estava com vontade, mas como estava prescrito e ela não podia se desviar da prescrição, comerá mesmo sem ter satisfação com aquela refeição.
  4. Por acreditar que não pode se desviar, mas desviando várias vezes (não tem como evitar), a pessoa começará a se sentir culpada, e acreditar que está errando/furando/deslizando/jacando. Isso começa a levar a pessoa a construir uma relação transtornada com a comida, permeada por impulsos, por “dane-ses”, culpa, revolta, baixa auto confiança e auto estima. Assim, o ato de comer deixa de ser normal.

Na nutrição comportamental a pessoa é conduzida a fazer as suas próprias escolhas e a tomar as suas próprias decisões, pois entendemos que as escolhas e decisões devem ser feitas a partir da nossa percepção do nosso próprio corpo, e para isso será preciso se reconectar com o corpo/com os sinais do corpo. Assim, a pessoa irá perceber que suas preferências e seus níveis de fome variam durante o dia, e conforme o dia, e isso é normal. Você faz xixi todos os dias na mesma frequência e quantidade? Fica se cobrando por estar com vontade de fazer xixi na “hora errada”, muito cedo ou muito tarde?

É muito importante que a pessoa retome a confiança em si mesma, no seu bem senso e no seu corpo para tomar as próprias decisões sobre o quanto comer. Pode ser um processo um pouco difícil no início, mas ainda assim deve ser bem mais difícil ter toda a sua alimentação pré estabelecida por alguém que te viu uma vez, na primeira consulta. Sinceramente, eu acho isso muito delicado. Por isso, eu pergunto se a pessoa quer receber um plano alimentar. Obviamente a maioria quer, e eu entendo que ela precise de um norte, de uma referência. Porém, eu sempre explico que as quantidades são apenas referências, e que acima de tudo ela deve respeitar a sua fome e a sua saciedade. “Ah, nutri, mas eu não sei a diferença de nada disso!”. Bom, isso significa apenas que teremos mais aprendizados e trabalho a fazer.

No início a pessoa pode se sentir um pouco “desorientada”, mas não é negligência do nutricionista comportamental, é parte do processo e logo tudo vai voltando a fazer sentido. Pessoas com funcionamento mental muito rígido consigo mesmas (tipo 8-80), podem acreditar que precisam de rédea curta por que não são “confiáveis”, por isso poderão ter mais dificuldade de se adaptar com essa abordagem. Mas, sinceramente, um dia ela terá que passar, por que a fome é dinâmica, como a vida é dinâmica. Não existem regras rígidas na vida, tudo é relativo, assim como muitas coisas no nosso corpo não controlamos e, enquanto a pessoa levar a vida com extrema rigidez e quiser levar a sua fome e o seu corpo com rigidez, vai haver sofrimento e, ao invés de controle, vai haver justamente o contrário: o descontrole. A pessoa precisa passar pela experiência de se responsabilizar pelas suas decisões e fazer isso de forma autônoma, independente e com fluidez. Não acha?

Nutrição comportamental e mudança da relação com a comida: a melhor “dieta” para emagrecer.

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