Hoje em dia a cobrança pelo corpo magro é imensa, sabemos disso. Como consequência, passamos a buscar maneiras de controlar nosso apetite e o nosso corpo, nosso peso. Com isso, começaram a surgir as dietas, de todos os tipos e níveis de loucuras. Em decorrência disso, passamos a seguir diversas orientações externas de profissionais, da mídia e “digital influencers” sobre o que é bom ou não comer, o que devemos ou não comer, quando comer, quanto comer.

Isso está causando um impacto muito grave em nosso comportamento alimentar: chegamos ao ponto que não sabemos mais o que é comer normalmente, ou comer normal, comer com naturalidade, sem culpas ou preocupações desnecessárias ou exageradas, ao ponto que algumas pessoas chegam ao consultório realmente sem saber o que faz parte de um comer normal ou não. Justo comer que é algo tão simples, ou deveria ser tão simples quanto ir ao banheiro urinar, por exemplo, tornou-se algo alvo de tanta crítica e julgamento interno e externo, alvo de tanta culpa e preocupação.

Quando você sente vontade de ir ao banheiro urinar, você fica se questionando se aquela vontade deveria estar surgindo naquele momento ou não? Sente-se preocupado ou culpado por estar com vontade de urinar? Fica segurando o xixi por achar que está errado urinar naquela hora? Vai ao banheiro sem vontade de urinar? Fica preocupado desnecessariamente por qualquer alteração no seu padrão de urinar? Pois é. Urinar é uma necessidade fisiológica, assim como comer. Mas quando se trata de comer, a gente complica muito mais, em resultado aos acontecimentos lá do primeiro parágrafo.

De encontro a isso, achei interessante escrever o que é “comer normal”. As características de alguém que come normal são (segue um trecho da definição da nutricionista Ellyn Satter, em um livro de nutrição comportamental):

“Comer normalmente é ser capaz de comer quando você está com fome, e continuar comendo até ficar satisfeito.

É ser capaz de escolher os alimentos que você gosta e comê-los até aproveitá-los suficientemente – não simplesmente parar por que você acha que deveria.

É ser capaz de pensar um pouco para selecionar alimentos mais nutritivos, mas sem ser tão preocupado e restritivo a ponto de não comer os alimentos mais prazerosos.

É dar permissão a você mesmo para comer às vezes por que você está feliz, triste ou entediado ou apenas por que é gostoso.

Comer normalmente é, na maioria das vezes, fazer 3, 4 ou 5 refeições por dia, ou deixar a sua fome guiar quantas vezes vai comer ao longo do dia.

É, também, deixar de comer um pedaço de bolo por que você pode comer mais amanhã, ou então comer mais um pouco agora por que ele é maravilhoso enquanto ainda está quentinho.

É comer em excesso às vezes e depois se sentir estufado e desconfortável. Também é comer pouco de vez em quando, desejando ter comido mais.

Comer normalmente é confiar que seu corpo conseguirá corrigir os pequenos “erros” da sua alimentação.

Comer normalmente requer um pouco do seu tempo e atenção, mas também ocupa o lugar de apenas uma área importante, entre tantas, da sua vida.

Resumindo, comer normalmente reflete um comportamento flexível. Ele varia em resposta às suas emoções, rotina, agenda, fome, proximidade com a comida e seus sentimentos.”

Como você pode ver não há regras rígidas, o que choca diretamente com as crenças extremamente rígidas das pessoas que estão acima do peso e querem emagrecer, pois elas acreditam que precisam de regras muito severas para manter o controle da alimentação e do peso. Acreditam que para emagrecer não pode comer nada do que gosta, ou que para se manter magro não poderá comer nada do que gosta, acham que sentir fome é errado, que existem alimentos emagrecedores e engordantes, acreditam que precisam controlar os sinais do corpo, de fome e saciedade, de vontade de comer determinados alimentos, como se isso fosse possível, e por isso não conseguem fluir com tudo isso.

Essas crenças distorcidas e esses medos paralisantes precisam ser desconstruídos, para então construir uma nova forma de comer.

Nutrição comportamental e mudança da relação com a comida: a melhor “dieta” para emagrecer.