Nutricionista Adriana Lauffer

TARE em Adultos

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O Transtorno de Alimentação Restritivo Evitativo (TARE), conhecido internacionalmente como ARFID, é um transtorno alimentar que afeta a forma como as pessoas se relacionam com a comida. Diferente de outros distúrbios alimentares, quem tem TARE não está preocupado com peso ou aparência física. Mas, sim, enfrenta dificuldades genuínas para comer de forma adequada. Nesse post, vamos entender melhor como é a manifestação do TARE em adultos.

O que é TARE?

TARE se manifesta através de padrões alimentares muito restritos que podem levar a problemas nutricionais, perda de peso ou dificuldade para ganhar peso adequadamente. Além disso, causa impactos significativos na vida social e emocional da pessoa. Um detalhe importante é que nem todas as pessoas com TARE estão abaixo do peso. Muitas mantêm peso normal e algumas até apresentam sobrepeso, por isso o diagnóstico não pode se basear apenas no IMC.

Por que o TARE acontece?

O TARE tem três principais causas, que muitas vezes aparecem juntas na mesma pessoa:

Sensibilidade aos aspectos sensoriais dos alimentos: algumas pessoas simplesmente não conseguem lidar com certas texturas, cheiros, sabores ou até mesmo com a aparência dos alimentos. Isso não é frescura – é uma dificuldade real que impede a pessoa de comer uma variedade adequada de alimentos e pode até dificultar situações sociais que envolvem comida.

Falta de interesse ou apetite: outras pessoas simplesmente esquecem de comer, param de comer muito cedo nas refeições ou não sentem prazer algum ao se alimentar. Para essas pessoas, comer parece uma tarefa chata ou desinteressante.

Medo de consequências ruins ao comer: este é o padrão mais comum em adultos, presente em cerca de 93% dos casos atendidos em clínicas de gastroenterologia. A pessoa sente pânico ou muita ansiedade ao pensar em comer, tem medo de que algo ruim aconteça (como engasgar, vomitar ou sentir dor) e acaba evitando várias situações que envolvem alimentação.

Importante destacar que essas três causas raramente aparecem isoladas – geralmente, a pessoa experimenta uma combinação delas.

Como identificar o TARE?

Os sinais de TARE variam de acordo com a causa predominante:

Para quem tem sensibilidade sensorial: a pessoa relata que cheiros e texturas específicas impedem de comer certos alimentos e de participar de eventos sociais como festas ou jantares. Por exemplo, pode não conseguir comer nada que seja “molhado” ou evitar qualquer alimento de cor verde.

Para quem tem falta de interesse: a pessoa costuma parar de comer logo no início da refeição, não sente prazer ao comer e frequentemente esquece de fazer refeições. Pode passar o dia todo sem comer e só perceber à noite.

Para quem tem medo: experimenta ansiedade física intensa ao pensar em comer, sente medo genuíno de se alimentar e evita ativamente situações que envolvam comida.

Outros sinais comuns incluem queixas de baixo peso, perda de peso não intencional, falta de apetite e aversão a alimentos específicos. Vale mencionar que cerca de 71% das pessoas com TARE também apresentam algum transtorno de ansiedade.

TARE em adultos com problemas gastrointestinais

A relação entre TARE e sintomas gastrointestinais é complexa e pode acontecer de três formas diferentes:

1. TARE como tentativa de evitar sintomas digestivos: algumas pessoas desenvolvem TARE tentando controlar desconfortos gastrointestinais. Por exemplo, param de comer certos alimentos para evitar dores abdominais, náuseas ou outros sintomas desagradáveis.

2. TARE como consequência de problemas digestivos: outras pessoas desenvolvem o transtorno como resultado direto de sintomas gastrointestinais, como esquecer de comer por longos períodos devido à falta de apetite causada por náuseas constantes.

3. Sobreposição de diagnósticos: em alguns casos, os sintomas de TARE e de transtornos digestivos são tão parecidos que fica difícil saber onde termina um e começa o outro.

Estudos mostram que TARE é bastante comum em clínicas de gastroenterologia, aparecendo em até 24% dos pacientes. Os diagnósticos gastrointestinais mais associados ao TARE incluem gastroparesia (quando o estômago demora muito para esvaziar), síndrome do desconforto pós-refeição, síndrome do intestino irritável com constipação e constipação crônica.

Uma descoberta importante é que quanto mais diagnósticos gastrointestinais a pessoa tem, maior a chance de ela também apresentar TARE. Pessoas com problemas digestivos também relatam ter passado por mais experiências ruins relacionadas à comida, o que contribui para a evitação alimentar.

Um ponto crucial a entender é que, tradicionalmente, tratamentos para alguns problemas digestivos recomendavam evitar certos alimentos para prevenir sintomas. Porém, isso pode acabar piorando ou mantendo o TARE, já que o tratamento adequado para TARE envolve justamente o oposto: exposição gradual aos alimentos temidos ou evitados.

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Referências

  1. Prevalence and Characteristics of Avoidant Restrictive Food Intake Disorder in Adult Neurogastroenterology Patients – Estudo publicado em agosto de 2020 que investigou a prevalência e características do TARE em pacientes adultos de neurogastroenterologia.
  2. The clinical presentation of avoidant restrictive food intake disorder in children and adolescents – Artigo publicado no The Lancet, Volume 63, setembro de 2023, que descreve a apresentação clínica do TARE em crianças e adolescentes, incluindo dados sobre os três motivadores principais e comorbidades.
  3. The diagnosis of avoidant restrictive food intake disorder in the presence of gastrointestinal disorders – Estudo que examinou o diagnóstico de TARE na presença de transtornos gastrointestinais, com dados sobre as motivações para evitação alimentar em diferentes grupos.
  4. A scoping review of psychological interventions and outcomes for avoidant and restrictive food intake disorder – Revisão de escopo sobre intervenções psicológicas para TARE, que forneceu informações sobre a caracterização do transtorno e seus impactos.
  5. Management of Adult Patients with Gastrointestinal Symptoms from Food Hypersensitivity—Narrative Review – Artigo publicado no Journal of Clinical Medicine em 2022 que discute o manejo de pacientes adultos com sintomas gastrointestinais relacionados à hipersensibilidade alimentar.