Nutricionista Adriana Lauffer

Hipervigilância de Sintomas em Pessoas com Distúrbios Gastrointestinais

Hipervigilância de Sintomas em Pessoas com Distúrbios Gastrointestinais

A hipervigilância de sintomas é um fenômeno que afeta muitas pessoas com problemas digestivos funcionais, como a Síndrome do Intestino Irritável e Dispepsia Funcional, por exemplo. Trata-se de um estado em que a pessoa presta atenção excessiva e desproporcional às sensações vindas do sistema digestivo e, para entender melhor esse problema, é importante conhecer como o cérebro e o intestino se comunicam normalmente e o que acontece quando essa comunicação não funciona adequadamente. Nesse post, vamos entender melhor sobre a hipervigilância de sintomas em pessoas com distúrbios gastrointestinais.

Como o cérebro e o intestino se comunicam

Nosso corpo possui um sistema de comunicação constante entre o cérebro e os órgãos internos, incluindo o intestino. Esse sistema funciona como uma “estrada de mão dupla”, onde informações viajam nos dois sentidos. Por um lado, o intestino envia mensagens ao cérebro informando sobre sua condição, como sensação de plenitude após uma refeição ou necessidade de evacuar. Por outro lado, o cérebro envia mensagens de volta ao intestino, ajudando a regular suas funções, como controlar a produção de ácido gástrico e coordenar os movimentos intestinais.

Essa comunicação acontece através de três vias principais. Primeiro, existe o nervo vago, que funciona como um “cabo telefônico” direto entre o intestino e o cérebro. Segundo, existem vias através da medula espinhal que também transportam informações sensoriais. Terceiro, substâncias químicas produzidas no intestino, chamadas de hormônios e neurotransmissores, circulam pelo sangue e influenciam o cérebro.

Normalmente, o cérebro atua como um “filtro inteligente” para essas mensagens vindas do intestino. Ele diminui a intensidade dos sinais para que não se tornem desconfortáveis e mantém a maior parte dessas sensações fora da nossa consciência. Isso permite que possamos realizar nossas atividades diárias sem estar constantemente cientes de cada pequena sensação digestiva. Por exemplo, você não percebe a digestão acontecendo enquanto trabalha ou conversa com amigos.

O que acontece na hipervigilância de sintomas

Na hipervigilância, esse sistema de comunicação entre o cérebro e o intestino funciona de maneira alterada. As pessoas com esse problema apresentam o que os cientistas chamam de “sinalização interoceptiva aumentada”. Em termos simples, isso significa que os sinais enviados pelo intestino ao cérebro chegam com muito mais intensidade do que deveriam. É como se o volume de um rádio estivesse sempre no máximo, tornando qualquer som extremamente alto.

Além disso, o cérebro dessas pessoas não consegue filtrar adequadamente essas mensagens. Regiões cerebrais específicas, como a ínsula e o córtex cingulado anterior, que normalmente ajudam a processar e regular essas sensações, funcionam de forma diferente. Estudos com exames de ressonância magnética mostraram que essas áreas cerebrais podem ter volume reduzido ou padrões de ativação alterados em pessoas com distúrbios gastrointestinais funcionais.

Outro aspecto importante envolve substâncias químicas no cérebro chamadas neurotransmissores. Pesquisas revelaram que pessoas com hipervigilância podem ter níveis alterados de neurotransmissores excitatórios, além de mudanças na expressão de receptores específicos chamados TRPV1, que detectam sinais de dor e desconforto. Essas alterações químicas contribuem para que a pessoa sinta dor ou desconforto mesmo com estímulos que normalmente não causariam problemas.

Como a hipervigilância se manifesta no dia a dia

A hipervigilância se manifesta de diversas formas no cotidiano. Primeiramente, a pessoa desenvolve uma sensibilidade aumentada a sensações que normalmente passariam despercebidas. Por exemplo, movimentos intestinais normais, leve distensão abdominal ou pequenas alterações na digestão são percebidos de forma muito intensa e frequentemente interpretados como sinais de algo errado.

Além disso, há uma atenção excessiva focada em qualquer sensação desagradável do sistema digestivo. A pessoa passa a monitorar constantemente como seu intestino está se sentindo, verificando repetidamente se há dor, desconforto ou outros sintomas. Esse monitoramento constante cria um ciclo vicioso, pois quanto mais a pessoa presta atenção nas sensações, mais intensas elas parecem.

O limiar de dor também fica diminuído. Isso significa que estímulos que não causariam desconforto em uma pessoa saudável provocam dor ou sensações desagradáveis significativas na pessoa hipervigilante. Por exemplo, a simples distensão do estômago após uma refeição normal pode ser percebida como extremamente desconfortável.

No aspecto emocional, a hipervigilância está intimamente ligada a respostas emocionais amplificadas. Por exemplo, as sensações do intestino que são parte de experiências emocionais normais, como as “borboletas no estômago” quando se está nervoso, tornam-se muito mais intensas. Essas sensações podem, por sua vez, intensificar as emoções, criando um ciclo onde a ansiedade aumenta os sintomas digestivos, e os sintomas digestivos aumentam a ansiedade.

Sinais comportamentais que indicam hipervigilância

Existem vários comportamentos que podem indicar a presença de hipervigilância. Um dos mais comuns é a evitação de alimentos por medo de sintomas. A pessoa passa a restringir severamente sua dieta, eliminando cada vez mais alimentos na tentativa de evitar desconforto. Isso acontece porque desenvolveu um medo intenso das consequências de comer, incluindo preocupações com náusea, distensão abdominal, dor ou vômito.

Muitas pessoas relatam sentimentos de pânico ou ansiedade relacionados especificamente à alimentação. Podem evitar comer fora de casa, recusar convites sociais que envolvam comida ou planejar obsessivamente todas as refeições. Alguns indivíduos descrevem que suas primeiras preocupações ao acordar pela manhã estão relacionadas aos sintomas digestivos, mostrando como a hipervigilância permeia todos os aspectos da vida.

Também é comum haver dificuldade em distinguir entre emoções e sensações físicas. A pessoa pode não saber se está sentindo ansiedade, tristeza ou simplesmente desconforto abdominal. Essa confusão acontece porque as sensações intestinais são parte integrante das experiências emocionais, e quando ambas estão amplificadas, torna-se difícil separá-las.

O impacto na qualidade de vida

As consequências da hipervigilância vão muito além do desconforto físico. Estudos mostram que a sensibilidade aumentada às sensações digestivas está diretamente relacionada a uma pior qualidade de vida emocional. As pessoas frequentemente desenvolvem sintomas de ansiedade e depressão como resultado do ciclo constante de preocupação e desconforto.

O funcionamento social também sofre significativamente. Evitar situações sociais por medo de sintomas leva ao isolamento. Relacionamentos podem ser prejudicados quando a pessoa precisa cancelar compromissos frequentemente ou tem dificuldade em participar de atividades normais como jantar com amigos ou viajar.

Paradoxalmente, a própria atenção excessiva aos sintomas pode piorá-los. Quanto mais a pessoa foca nas sensações digestivas, mais o cérebro interpreta essas sensações como ameaçadoras, criando um ciclo de amplificação dos sintomas. Isso explica por que muitas intervenções eficazes focam em ajudar a pessoa a mudar sua relação com essas sensações, em vez de apenas tentar eliminá-las.

Como identificar a hipervigilância

Profissionais de saúde identificam a hipervigilância através de várias abordagens. Primeiro, avaliam cuidadosamente a relação entre a intensidade das sensações corporais relatadas e a gravidade objetiva dos sintomas. Se há uma grande discrepância, com a pessoa relatando sintomas muito intensos sem achados médicos correspondentes, isso pode sugerir hipervigilância.

Questionários validados podem ajudar a medir a sensibilidade interoceptiva e o grau de atenção que a pessoa presta às sensações corporais. Esses instrumentos de avaliação clínica utilizados pelos profissionais avaliam aspectos como a frequência com que a pessoa monitora suas sensações digestivas, o quanto essas sensações interferem nas atividades diárias e quão ameaçadoras as sensações parecem.

A presença de padrões comportamentais característicos também é importante. Profissionais observam se há evitação alimentar significativa, restrições dietéticas autoimpostas sem base médica clara e ansiedade pronunciada relacionada à alimentação e aos sintomas digestivos.

Em alguns casos, exames especializados de neuroimagem podem revelar alterações nas áreas cerebrais envolvidas no processamento das sensações corporais. Porém, esses exames são principalmente ferramentas de pesquisa e não são necessários para o diagnóstico clínico na maioria dos casos.

Tratamentos promissores

A boa notícia é que existem tratamentos eficazes para a hipervigilância. A terapia cognitivo-comportamental com exposição interoceptiva tem demonstrado resultados particularmente promissores. Essa abordagem ensina as pessoas a se relacionarem de forma diferente com suas sensações corporais, abordando-as com curiosidade em vez de medo ou evitação.

Outras intervenções, como a estimulação do nervo vago e técnicas de autorregulação como meditação e relaxamento, também têm mostrado benefícios. Essas abordagens ajudam a restaurar o equilíbrio na comunicação entre o cérebro e o intestino, reduzindo tanto os sintomas físicos quanto o sofrimento psicológico.

Compreender que a hipervigilância é um problema real, com bases fisiológicas identificáveis no funcionamento do cérebro e do sistema nervoso, é fundamental. Não se trata de sintomas imaginários ou “psicológicos” no sentido de não serem reais. São problemas genuínos na forma como o cérebro processa informações do corpo, e merecem tratamento adequado e compassivo.

Gostou desse post? Então você poderá gostar do post sobre Como a dor visceral influencia as emoções.

Referências

Bogaerts, K., Walentynowicz, M., Van Den Houte, M., Constantinou, E., & Van den Bergh, O. (2022). The Interoceptive Sensitivity and Attention Questionnaire: Evaluating Aspects of Self-Reported Interoception in Patients with Persistent Somatic Symptoms, Stress-Related Syndromes, and Healthy Controls. Psychosomatic Medicine, 84, 251–260.

Bonaz, B., Bazin, T., & Pellissier, S. (2018). The Vagus Nerve at the Interface of the Microbiota-Gut-Brain Axis. Frontiers in Neuroscience, 12, 49.

Bonaz, B., Lane, R.D., Oshinsky, M.L., Kenny, P.J., Sinha, R., Mayer, E.A., & Critchley, H.D. (2021). Diseases, Disorders, and Comorbidities of Interoception. Trends in Neurosciences, 44, 39–51.

Critchley, H.D., & Garfinkel, S.N. (2017). Interoception and emotion. Current Opinion in Psychology, 17, 7–14.

Farmer, A.D., & Aziz, Q. (2013). Gut pain & visceral hypersensitivity. British Journal of Pain, 7(1), 39–47.

Fournier, A., Mondillon, L., Luminet, O., Canini, F., Mathieu, N., Gauchez, A.S., Dantzer, C., Bonaz, B., & Pellissier, S. (2020). Interoceptive Abilities in Inflammatory Bowel Diseases and Irritable Bowel Syndrome. Frontiers in Psychiatry, 11, 229.

Karaivazoglou, K., Aggeletopoulou, I., & Triantos, C. (2024). Interoceptive Processing in Functional Gastrointestinal Disorders. International Journal of Molecular Sciences, 25, 7633.

Schulz, A., Welsch, S.K., Etringer, S., Hansen, G., Milbert, L., Schneider, J., Taddei, G., Gomez Bravo, R., Lygidakis, C., van Dyck, Z., et al. (2023). Lower gastric sensitivity in quiescent inflammatory bowel disease than in irritable bowel syndrome. Physiology & Behavior, 270, 114293.

Simrén, M., Törnblom, H., Palsson, O.S., et al. (2018). Visceral hypersensitivity is associated with GI symptom severity in functional GI disorders: Consistent findings from five different patient cohorts. Gut, 67, 255–262.

Tang, H.Y., Jiang, A.J., Wang, X.Y., Wang, H., Guan, Y.Y., Li, F., & Shen, G.M. (2021). Uncovering the pathophysiology of irritable bowel syndrome by exploring the gut-brain axis: A narrative review. Annals of Translational Medicine, 9, 1187.