“Imagem corporal” é a percepção que nós temos sobre o nosso corpo e a atitude que temos em relação à nossa aparência, e tudo isso é muito mais subjetivo do que objetivo. Nossas percepções sobre o nosso corpo podem não estar de acordo com as percepções das outras pessoas, sendo que é muito comum termos uma percepção muito mais negativa da nossa imagem corporal do que o julgamento das demais.

É importante entender o que gerou essa auto imagem corporal negativa, mas ainda mais importante é entender o que a mantém, o que alimenta essa distorção de imagem, por que isso pode constituir um dos maiores obstáculos para o emagrecimento. Sabia disso?

Na Nutrição Comportamental ajudamos o paciente a gerenciar essas preocupações e o encorajamos a desenvolver uma auto imagem corporal mais positiva, o que muitas vezes é interpretado como se o nutricionista comportamental fosse contra o emagrecimento e/ou a favor do excesso de peso, mas verdade é para que o paciente justamente para não sabote próprio o emagrecimento e valorize suas conquistas.

Vamos entender então como a manutenção da auto imagem corporal negativa atrapalha o emagrecimento? Especialmente no mundo ocidental há um descontentamento normativo com o corpo, pois na nossa sociedade quem está acima do peso é visto, em geral, como não-atraente ou mal sucedido. Isso faz com que as pessoas não gostem da sua aparência e busquem emagrecer. Essa é a principal razão, certo? As pessoas acreditam que se emagrecerem, se ficarem magras, vão melhorar a sua aparência, e assim terão mais bem estar, reconhecimento e sucesso de forma geral. Isso contribui para que os pacientes não valorizem ou não fiquem satisfeitos com uma perda de peso moderada, apesar de terem emagrecido. Essa subestimação do resultado obtido (perda de peso moderada) por parte do paciente mostra que a auto imagem negativa, a distorção de imagem ainda perpetua, e pode contribuir para que o paciente tenha recaída (reganho de peso).

Não são todas as pessoas acima do peso que sofrem com distorção de imagem, mas algumas apresentam problemas complexos que trazem bastante sofrimento, e a abordagem cognitivo comportamental pode ajudar muito a melhorar essa auto imagem mesmo que não haja emagrecimento, afinal, já se sabe que a auto imagem nem sempre é resolvida com o emagrecimento. Certo? É comum a pessoa emagrecer e continuar se achando gorda, ou continuar insatisfeita com determinadas partes do corpo ou continuar se sentindo infeliz.

Uma diferença importante que precisamos falar são os conceitos de “aparência física” e de “imagem corporal”. Aparência física é objetiva e real, já imagem corporal é uma representação mental que a pessoa tem sobre o seu corpo. É diferente sentir-se gorda quando de fato não estamos. Ou estarmos de fato gordos mas ainda assim nos sentirmos confiante em relação ao próprio corpo e ao nosso próprio valor como pessoa. É natural não gostarmos de alguma parte do nosso corpo e querer mudar essa parte, desde que essa insatisfação não interfira na nossa visão geral sobre nós mesmos, não afete nosso senso de merecimento e de valor como pessoa, e não afete a nossa vida social ou trabalho. Porém, se essa insatisfação com a imagem ou parte do corpo afeta a visão de si mesmo e a execução de atividades diárias ou a socialização, isso precisa ser trabalhado.

O primeiro passo para começar a trabalhar isso é entender a origem da auto imagem negativa. Talvez pensar sobre isso deixe a pessoa bastante angustiada, pois é um assunto muito delicado. No entanto, é preciso ter coragem e enfrentar esse assunto, por mais desconfortável que seja, pois será importante para o sucesso do emagrecimento e a manutenção do peso conquistado.

Existem 4 processos que contribuem para o desenvolvimento de uma auto imagem corporal negativa: 1) pressões sociais que obedecem a um padrão particular de beleza. Isso reforça a busca pelo emagrecimento para se encaixar no padrão, e assim a ato imagem negativa é reforçada em relação ao modo como os demais vêem a sua aparência. 2) pressões sociais específicas do paciente, como aqueles que cresceram em ambientes que prezavam pelo corpo magro, ou em que eram comparadas desfavoravelmente com pessoas magras. 3) Forma física notável, como uma puberdade precoce, em que mamas maiores se destacavam entre as demais meninas, rosto com mais espinhas, ser muito baixo ou muito alto, etc, que pudesse chamar atenção de forma negativa e ser alvo de bullying. 4) Incidentes negativos no passado, como pessoas que foram humilhadas por estarem acima do peso.

Após identificar o que gerou a auto imagem corporal negativa, é importante entender quais fatores a mantém atualmente. Os principais fatores mantenedores no ambiente em que a pessoa vive são: 1) pressões sociais em geral. Por exemplo: se morássemos em país, com outra cultura, em que o peso acima do peso são mais atraentes do que as magras, não teríamos problemas com a auto imagem corporal. 2) pressões sociais específicas do paciente, como ter problemas no trabalho que exigem viajar de avião, apresentar-se publicamente, ou ter problemas em ambiente de convívio pessoal, como a esposa/o marido fazer comentários sobre o peso ou comentários negativos sobre a aparência. Temos também comportamentos mantenedores por parte do paciente. São eles: 1) comportamento evitativo: é quando o paciente evita situações nas quais sente medo de se sentir constrangido com sua aparência, como provar roupas numa loja, fazer algum esporte, ter relação sexual, frequentar certos eventos sociais, inclusive ter que se pesar. Evitar essas situações trará alívio momentâneo de não ter que enfrentá-las, mas não diminui a angústia quanto à isso. Pelo contrário, essa evitação fará com que o problema perpetue, pois impede que o paciente aprenda a lidar com seus medos, que na maior parte das vezes nem são reais, e sim apenas fantasias da mente ou projeções. Essa evitação pode até piorar o problema, por que acaba reforçando a crença da pessoa que o seu corpo é tão inaceitável que é necessário muito esforço para escondê-lo e que ele não merece vivenciar tais experiências. 2) Comportamentos de avaliações corporais: ao invés de evitar, aqui acontece o oposto entre alguns pacientes acima do peso, que é a avaliação repetitiva do corpo ou de alguma parte do corpo, da aparência ou do peso, como ficar se analisando no espelho, tirando medidas, apertando partes/dobras do corpo, ou ficar perguntando repetidamente sobre a própria aparência. Pode haver um alívio ao fazer essa avaliação, porém ele é momentâneo, por que a avaliação do corpo mantém a auto imagem corporal negativa por aumentar as preocupações, uma vez que estas são evidenciadas, e por alimentar a ideia que a avaliação constante é necessária para prevenir medos de engordar ou aumentar a gordura.

Existem também pensamentos e crenças mantenedores. Vamos lá? Existem previsões negativas, por exemplo: devo disfarçar meus braços, senão todos verão como são grandes. Isso leva a pessoa a enxergar seu corpo em partes, e não como um todo, leva o paciente a exagerar a probabilidade de reação negativa das reações das outras pessoas e a focar somente na forma do seu corpo e desconsiderar suas outras qualidades positivas. Essas visões distorcidas fazem com que o paciente aceite-as como verdades e aja de acordo com elas, impedindo o paciente de constatar que esses medos não são necessariamente reais. Existem pensamentos críticos recorrentes, como: “eu pareço horrível” ou “eu pareço uma baleia”. Esses pensamentos também tendem a ser aceitos como verdades pelo paciente, geram angústia e alimentam interpretações distorcidas sobre o peso e o corpo, bem como alimentam comportamentos ruins, como não perceber os efeitos positivos do emagrecimento, acreditar que nada fará diferença, que sempre será gordo, que nunca será atraente. Existe a interpretação errônea de um estímulo físico, que podem ser interpretados como evidência de estar gordo, como a sensação de flacidez do corpo ou retenção de líquido. Existem as crenças disfuncionais, como “o sucesso depende de ser magro”, “apenas os magros são felizes no amor”, “só me sentirei confiante quando eu for magro”, “para ser respeitado preciso ser magro”. Essas crenças aparecem mais quando os pacientes falam sobre os motivos pelos quais querem emagrecer e como pensam que suas vidas mudarão quando estiverem magros. Essas crenças passam a ser aceitas como verdades, sem questionamento por parte do paciente, e acabam mantendo a insatisfação corporal, por que reforça a crença do paciente na sua imagem negativa, e coloca a auto imagem negativa como a responsável pelas suas dificuldades de relacionamentos, de auto confiança, desilusões e frustrações. E pior, faz com que o paciente não trabalhe na melhoria de seus relacionamentos ou outros problemas, até que esteja magro.

O primeiro passo para começar a a administrar melhor a auto imagem corporal negativa é monitorando elas. Obviamente, pode necessitar de terapia com abordagem cognitiva comportamental juntamente com o nutricionista comportamental. O monitoramento constitui em prestar atenção aos seus pensamentos e registrar/anotar crenças que surgirem à mente, para então conseguir explorá-las e questioná-las, confrontá-las de maneira mais assertiva, desmistificando-as, e emitindo respostas adaptativas. Isso normalmente precisa de ajuda profissional. Busque!

Existem muitas razões para superar esse problema. Resolvendo isso você vai deixar de viver momentos de angústia, que alimentam sentimentos considerados desagradáveis de sentir e pensamentos negativos. Não deixe de viver a sua vida esperando emagrecer. Não deixe a sua vida para depois. Resolva a sua auto imagem corporal negativa, ou então mesmo estando mais magro você poderá não se sentir satisfeito com ela.

Nutrição comportamental e mudança da relação com a comida: a melhor “dieta” para emagrecer.