Nutricionista Adriana Lauffer

Dieta FODMAP para síndrome do intestino irritável

Dieta Fodmap para SII

Você enfrenta regularmente dores abdominais, inchaço, gases e alterações no hábito intestinal? Então, provavelmente, você lida com a Síndrome do Intestino Irritável (SII), uma condição que afeta entre 10% e 15% da população mundial. Felizmente, existe uma abordagem alimentar que revoluciona o tratamento desta síndrome: a dieta low FODMAP, atualmente considerada a principal conduta dietoterápica para reduzir os sintomas da SII.

Entendendo a SII

Até pouco tempo atrás, os médicos consideravam a SII um distúrbio puramente funcional, sem causa orgânica identificável. Contudo, este cenário está mudando rapidamente. Afinal, estudos científicos recentes têm identificado alterações na mucosa intestinal, como permeabilidade intestinal aumentada e disbiose (alteração da microbiota intestinal).

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Sintomas da síndrome do intestino irritável

Embora a SII não cause danos graves à saúde como a retocolite ulcerativa ou a doença de Crohn, ela prejudica significativamente a qualidade de vida devido aos seus sintomas característicos:

  • Dor abdominal
  • Distensão abdominal
  • Flatulência excessiva
  • Alteração no padrão de evacuação
  • Alternância no formato das fezes
  • Frequentemente, há também má digestão sem causa identificável
  • Disbiose intestinal é comum

É importante ressaltar que estes sintomas podem se confundir com outras condições, como sensibilidade não celíaca ao glúten, e até mesmo com doença diverticular sintomática não complicada, tornando o diagnóstico médico fundamental antes de iniciar qualquer tratamento.

Dieta Low FODMAP para síndrome do intestino irritável

FODMAP é um termo acrônimo, em inglês, para “Fermentable​​ Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides and Polyols”, ou seja, oligossacarídeos (frutanos e galactanos), dissacarídeos (lactose), monossacarídeos (frutose) e polióis fermentavéis. A dieta FODMAP foi desenvolvida na Universidade de Monash, em Melbourne, por Peter Gibson e Susan Shepherd, em 2010.

Nesta dieta a pessoa tem que evitar algumas frutas, vegetais, cereais, oleaginosas, leguminosas, e lácteos com lactose. Esses alimentos precisam ser evitados por serem fonte dos tipos de carboidratos que fermentam, que são os citados anteriormente: frutose, lactose, oligossacarídeo, frutanas, galactanas e poliol.

Embora a dieta sofra algumas críticas sobre ser pobre em fibras ou por gerar disbiose a longo prazo, todas essas críticas e controvérsias sobre a dieta FODMAP já foram fundamentadas pelo próprio pesquisador Peter Gibson em seu artigo Controversies and reality of the FODMAP diet for patients with irritable bowel syndrome, março 2019.

A má absorção dos FODMAP’s na síndrome do intestino irritável

A má absorção da maioria destes carboidratos é comum a todas as pessoas. No entanto, os pacientes com SII sofrem sintomas mais intensos por apresentarem maior sensibilidade visceral.

Quando o intestino delgado não consegue digerir adequadamente estes carboidratos, eles são transportados para o intestino grosso e fermentados pela microbiota local. Durante este processo, produzem-se gases como hidrogênio e dióxido de carbono, além de ácidos graxos de cadeia curta. Estes gases exercem pressão nas paredes intestinais, causando dor, inchaço e desconforto.

Além disso, a fermentação provoca um efeito osmótico, aumentando a água no lúmen intestinal, o que acelera a motilidade intestinal e pode causar diarreia.

A Universidade de Monash fez um vídeo explicando esses mecanismos de fermentação

Eficácia do protocolo low FODMAP

A dieta funciona extremamente bem em aproximadamente 90% dos casos de pacientes com SII tipo diarreia ou alternado. Os 10% restantes podem não responder tão bem à dieta devido a fatores como níveis elevados de ansiedade ou traços de hipocondria, já que pacientes com SII frequentemente apresentam sintomas de depressão, ansiedade ou outros quadros psiquiátricos. Saiba mais no post sobre as causas da SII.

Para pacientes com SII tipo constipação, a melhora pode ser parcial – geralmente há redução significativa da dor, distensão e gases. Mas, nem sempre ocorre uma melhora expressiva na constipação. Nestes casos, pode ser necessário ajustar a quantidade de fibras na dieta ou investigar outros problemas. Portanto, Quando a dieta Fodmap não funciona, é preciso verificar outros aspectos.

Como funciona a dieta low FODMAP para síndrome do intestino irritável

O protocolo original, criado pelo próprio Peter Gibson, recomenda um tratamento em três fases bem definidas:

  1. Fase de Restrição: durante 2-6 semanas, você elimina completamente todos os alimentos ricos em FODMAPs. Esta fase crucial ajuda a acalmar o sistema digestivo e permite avaliar claramente a melhora dos sintomas.
  2. Fase de Desafio: após a melhora dos sintomas, você reintroduz sistematicamente grupos específicos de FODMAPs, um por vez, para identificar exatamente quais tipos e quantidades desencadeiam seus sintomas. Esta fase é fundamental, pois determina sua tolerância individual a cada carboidrato.
  3. Fase de Personalização: com base nos resultados dos testes de desafio, você e seu nutricionista desenvolvem um plano alimentar personalizado que evita apenas os FODMAPs problemáticos para seu organismo, permitindo maior liberdade alimentar sem desconforto.

A boa notícia é que provavelmente você poderá voltar a consumir alguns alimentos naturalmente ou esporadicamente, não ficando privado de todos eles para sempre.

Quando procurar ajuda profissional

Embora seja tentador buscar listas de alimentos low FODMAP na internet e fazer a dieta por conta própria, existem diversos desafios que tornam o acompanhamento profissional essencial:

  1. Há muitas informações contraditórias online, que deixam o paciente confuso
  2. O grande desafio está em realizar corretamente os testes de desafio e interpretar os resultados
  3. É fundamental personalizar a alimentação de manutenção para evitar restrições desnecessárias
  4. Um nutricionista experiente saberá avaliar se você precisa da versão restritiva ou da “gentil” da dieta FODMAP, dependendo do seu comportamento alimentar

O tratamento com um nutricionista especializado geralmente envolve:

  • Primeiro encontro: avaliação da alimentação e dos sintomas, orientação da dieta com plano alimentar e receitas adaptadas;
  • Segundo encontro: reavaliação dos sintomas e orientação dos testes de desafio;
  • Terceiro encontro: avaliação dos resultados e personalização da alimentação de manutenção

Comportamento alimentar e a dieta low FODMAP

Um aspecto frequentemente negligenciado é a relação entre comportamento alimentar e sintomas da SII. Fatores como ansiedade, exageros alimentares, má mastigação e comer com pressa podem agravar significativamente os sintomas. Portanto, parte do tratamento envolve também melhorar a relação com a comida e desenvolver práticas alimentares mais saudáveis.

Além disso, por ser uma dieta restritiva que deve ser executada corretamente por um período relativamente longo, pacientes com uma relação problemática com a comida podem experienciar uma piora no seu comportamento alimentar e, assim, abandonar o protocolo sem experimentar a melhora dos sintomas.

Portanto, um nutricionista experiente em comportamento alimentar e em dieta Fodmap saberá qual o melhor caminho para você: a dieta Fodmap restritiva ou a dieta Fodmap gentil.

Comportamento alimentar e emoções

Pacientes com SII normalmente possuem algum quadro psiquiátrico, como depressão, níveis altos de ansiedade, neuroticismo ou até mesmo algum traço de hipocondria.

Além disso, é comum uma pessoa ansiosa ou deprimida, acabar exagerando na alimentação (“descontando na comida”, como se costuma dizer) e sabe-se que exageros alimentares também podem levar a sintomas como os da SII, como: diarreia, flatulência, distensão e dor abdominal, má digestão.

Portanto, fique atento ao seu comportamento alimentar: momentos de exagero, o que leva ao exagero, má mastigação, comer rápido, etc. Afinal, parte dos seus sintomas podem ser consequência também da forma como você se alimenta e da sua relação com a comida.

Eu, como nutricionista especialista em gastroenterologia e em comportamento alimentar, com bastante experiência nessas duas áreas e em comportamento alimentar, te asseguro que isso é muito importante.

Outras indicações para fazer a dieta FODMAP

Além da SII, a dieta low FODMAP também apresenta resultados positivos em outras condições como doença celíaca, doenças inflamatórias intestinais, fibromialgia, e distúrbios funcionais isolados como dor abdominal, distensão ou constipação/diarreia que não se encaixam completamente no quadro diagnóstico de SII.

Conclusão

A dieta low FODMAP representa um avanço fundamental no tratamento da Síndrome do Intestino Irritável. Ao invés de apenas mascarar sintomas com medicamentos, esta abordagem ataca diretamente uma das causas fundamentais do problema: a fermentação excessiva de carboidratos específicos no intestino.

Se você sofre com SII e busca uma solução eficaz e personalizada, considere explorar a dieta low FODMAP sob orientação de um nutricionista especializado. Com o acompanhamento adequado, você poderá experimentar uma melhora significativa na sua qualidade de vida e bem-estar intestinal.

Interessado em fazer o protocolo Fodmap?

Aqui abaixo você encontra o meu livro sobre o Protocolo Low FODMAP, baseado nas orientações originais da Universidade de Monash, bem como um e-book de Receitas Low FODMAP e uma sugestão de cardápio Low FODMAP para que você consiga fazer o protocolo mantendo uma alimentação equilibrada, adequada em fibras e variada, mesmo sem orientação profissional.

Mas, lembre-se: não é indicado manter a fase de exclusão da dieta de exclusão por mais que 6 semanas e, além disso, o acompanhamento profissional é importante porque parte dos pacientes possuem outras condições clínicas associadas que o protocolo não resolverá por completo e, portanto, necessita de condutas adicionais.

Referências

  1. Gibson PR, Shepherd SJ. Evidence-based dietary management of functional gastrointestinal symptoms: The FODMAP approach. Journal of Gastroenterology and Hepatology. 2010;25(2):252-258.
  2. Gibson PR. Controversies and reality of the FODMAP diet for patients with irritable bowel syndrome. Gastroenterology & Hepatology. 2019;15(7).
  3. Staudacher HM, Whelan K. The low FODMAP diet: recent advances in understanding its mechanisms and efficacy in IBS. Gut. 2017;66(8):1517-1527.
  4. Halmos EP, Power VA, Shepherd SJ, Gibson PR, Muir JG. A diet low in FODMAPs reduces symptoms of irritable bowel syndrome. Gastroenterology. 2014;146(1):67-75.
  5. Monash University. The Low FODMAP Diet. Monash University. Department of Gastroenterology. 2019.
  6. Barrett JS. How to institute the low-FODMAP diet. Journal of Gastroenterology and Hepatology. 2017;32:8-10.