Jejum intermitente para emagrecer e o risco de transtornos alimentares

Fazer jejum é uma prática muito antiga, é secular. Ah, você achava que era novidade…?

Não, não é. Só que até então o jejum era normalmente praticado por religiosos em seus sacrifícios e é também uma prática comum entre anoréxicos e bulímicos e comedores compulsivos. Jejum sempre foi um sacrifício, algo ruim e sofrido. Não pense que religiosos gostam de passar fome! Também não pense que bulímicos, anoréxicos e comedores compulsivos fazem jejum com alegria ou por alegria. Eles fazem para compensar desesperadamente um excesso alimentar.

No entanto, recentemente, estudos têm mostrado os benefícios de jejuar, e se torna então mais uma estratégia-modinha para manter acesa a busca desesperada de milhares de pessoas pelo emagrecimento milagroso. Ok, podem ter estudos mostrando os benefícios do jejum, e eu não desconsidero isso, afinal, eu também baseio as minhas condutas profissionais em estudos científicos. Apesar de muitos estudos serem manipulados pelos pesquisadores e por jogos de interesse e vaidade, e eu mesma assisti isso durante meu mestrado e doutorado, mas isso é outra história.

Enfim, jejum até pode funcionar e trazer “ótimos” resultados, assim como qualquer outra prática extrema vai trazer resultados rápidos (leia-se extremos). Pode funcionar especialmente lá no laboratório, no estudo in vitro, ou com ratos, ou em estudos com humanos em situações controladas. Porém, não somos apenas nutrientes reagindo com células em uma placa de petry, não acha? E também não somos ratos, e não vivemos em uma situação de estudo controlado, e sim vivemos uma vida.

Vamos a alguns fatos:

O Dr Barakat em um vídeo sobre o jejum fala que o café da manhã como sendo a principal refeição do dia é uma história inventada pela indústria dos cereais matinais (assim como foi inventada a história do colesterol e da sinvastatina, há muitas outras também). Mas o café da manhã já existia muito antes dos produtores de leite e cereais fazerem seu marketing. Existem milhares de referências científicas comprovando que o café da manhã é uma refeição importante, especialmente para quem quer emagrecer, pois ajuda a manter a fome sob controle no decorrer o dia. O que mais vemos no dia-a-dia do consultório são pessoas que não fazem café da manhã por que preferem dormir até o último minuto e depois exageram no almoço e passam a tarde beliscando e assim vai, como reflexo de fome acumulada pela falta do café da manhã. E nos comparar com o homem paleolítico é um pouco complicado. Não vivemos mais naquela era (aliás, quantos aninhos eles viviam mesmo?). Por mais que nossa biologia não tenha mudado tanto, nossa vida mudou, e é essa que temos hoje. Precisamos viver nela da melhor forma possível, considerando a cultura, rotina, aspectos sociais…

Existem vários tipos de jejum que estão na moda. O 16/8, 5/2, o de pular uma refeição e aí vai. Mas tem um que todos nós fazemos desde que nascemos, normalmente: o das 20h às 8h (mais ou menos) que é o período em que estamos dormindo. Esse jejum não conta? Isso é querer apresentar apenas um lado da moeda, não é! A não ser que a pessoa esteja acostumada a jantar tarde e de forma farta, ou ficar comendo até a hora de dormir, ela poderá ter dificuldade para fazer esse jejum “normal”, por que poderá sentir fome antes de dormir. Se alimentar de forma mais consciente e racional a noite já vai trazer mais saúde e longevidade a esse indivíduo.

Ainda teve o Nobel de Medicina dado ao Dr Yoshinori Ohsumi por ter provado que o jejum é um método de longevidade e saúde, mas o estudo pelo qual ele foi premiado não prova nada disso. O nobel estudou o processo de autofagia em células de levedo, que seria uma mecanismo de limpeza das células. Mas o doutor Barakat, no vídeo, não falou que a simples restrição calórica para quem come mais do que devia também é uma forma de aumentar a longevidade (lógica já milenarmente conhecida). Além disso, não existem estudos em humanos suficientes para provar que essa teoria é uma evidência. Se algum grupo de pesquisa já começou a fazer um clinical trial para testar essa hipótese em seres humanos vamos ter que esperar pelo menos 80 anos para ver os resultados. Nós nunca saberemos, a não ser que exista reencarnação. Alimentação saudável e exercício físico regular também estão associados à saúde e longevidade, sem necessariamente se aderir às práticas do jejum. O Dr Barakat ainda não mencionou, provavelmente por que não era conveniente, que quando fazemos jejum as células de gordura detectam isso e interpretam como se tivéssemos passando fome, com falta de alimentos, e então essas células entram em modo de economia para se proteger e esse mecanismo, comprovado cientificamente, tem nome, que é “starvation resistance”, que é nada mais, nada menos que… “resistência ao jejum”, em português. E, considerando que fazer jejum é passar fome, busque por estudos da área de “Insegurança Alimentar” e você verá que passar fome está associado à obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Não foi o Atkins que morreu da própria dieta?

Então, não somos só um amontoado de células que abrem seus receptores de membrana para nutrientes e que liberam hormônios e substâncias. Reduzir o ato de comer a isso é demonstrar uma visão reducionista demais sobre o ato de comer. Por que comer não é só bioquímica, é também (ou muito mais) comportamento. E trazendo então a prática do jejum para a nutrição comportamental, vamos a mais fatos:

De que adianta se trancar no quarto para não comer, mas saber que quando fechar as 12h de jejum terá dois hambúrgueres já à sua espera que a sua esposa encomendou? Que tipo de comportamento você acha que é esse?

Fazer jejum, na visão de um nutricionista que trabalha com nutrição comportamental, como eu, é flertar com o perigo de desenvolver comer transtornado ou transtorno alimentar. Afinal, é isso que anoréxicos, bulímicos e comedores compulsivos fazem: uma restrição severa depois de uma orgia alimentar.

Se impor uma restrição alimentar severa para emagrecer é como querer parar de respirar: a gente aguenta um tempo sem respirar e depois não mais, vem o impulso incontrolável da sobrevivência de que precisamos respirar. Assim é com a comida: a gente aguenta um tempo a restrição, e depois não mais. Por isso, não se julgue ou se critique se você não consegue fazer a dieta da modinha! Saiba que apenas 5% da população consegue manter “de boa” uma dieta restritiva, ou seja, quase ninguém! Então, você faz parte da maioria. Acho que isso pode ser bom né, afinal a gente sempre quer estar inserido na “maioria”.

Então, se você tem uma relação difícil com a comida (comer transtornado), ou tem história passada de transtorno alimentar, recomendo fortemente que não adote esse tipo de estratégia radical para emagrecer (de nenhum tipo na verdade). E mesmo que você ainda não tem uma relação difícil com a comida, a prática de dietas radicais poderá lhe trazer de “presente” o comer transtorno e, se você tiver predisposição para transtorno alimentar, poderá também desenvolver.

Se você quer emagrecer a todo custo, ao invés de cair em mais um conto de milagre, pegue essa energia e invista em uma mudança interna e verdadeira para tornar a sua relação com a comida mais saudável! Aposto que será muito mais agradável do que jejuar, passar fome, depois comer compulsivamente. Aí o bicho pega!

Espero que esse post tenha te ajudado de alguma forma a entender melhor os efeitos colaterais de fazer jejum para emagrecer, e que fazer jejum não é para todos, pode não ser bom para você, e não tem problema nenhum nisso. É legal fazer parte da modinha, mas é muito mais legal respeitar o próprio corpo e ser autêntico. Seja autêntico e busque a sua verdadeira mudança!