Recentemente grandes movimentos contra a gordofobia, como o “body positive”, por exemplo, têm estimulado as pessoas com excesso de peso corporal a questionarem o desejo de emagrecer e a procurarem aceitar seus corpos do jeito que são. Isso é ótimo, mas tem deixado algumas pessoas confusas e acreditando que é errado querer emagrecer.

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Grupos com opiniões divididas

Tem pessoas que discordam desse tipo de movimento e são irredutíveis na opinião de que, se está gordo não está saudável, desconsiderando completamente que pode haver saúde mesmo estando acima do peso. Há pessoas que acreditam que é impossível gostar de si mesmo estando acima do peso e que não há beleza em estar/ser gordo.

De outro lado, tem aquelas pessoas que conseguem reconhecer que, não é porque se é magro que se é saudável, feliz, realizado, etc. Tem pessoas acima do peso que são saudáveis, tem uma boa alimentação, e convivem bem consigo mesmas estando acima do peso, que sabem que magreza não é sinônimo de beleza, felicidade, sucesso, e cujo projeto de emagrecer não faz parte das suas metas de vida.

Porém, tem um grupo de pessoas que está confuso. Esse grupo tenta aceitar o seu corpo acima do peso, tenta aderir aos movimento contra a gordofobia, mas não consegue, pois no fundo ainda deseja emagrecer. Esse grupo se pergunta: estou errado por querer emagrecer? Não deveria eu me aceitar do jeito que sou? Se desejo emagrecer, sou gordofóbico? A conclusão que fica para esse grupo de pessoas é que, se ainda deseja emagrecer, é porque não se aceita e não se ama do jeito que é e de que isso está errado.

Esses são os que perguntam: “Nutri, é errado querer emagrecer?” Vou te dar meu ponto de vista. Penso que não há nada de errado em sentir-se melhor consigo mesmo mais magro, e não é errado querer emagrecer, se:

1. O emagrecimento é um desejo genuíno

Emagrecer tem que fazer sentido para você. Se você está desejando emagrecer porque o médico mandou, porque sua mãe falou, o marido comentou, porque a amiga emagreceu, porque acha que só assim será feliz, realizada ou bonita (o), será um grande problema, porque o desejo não é seu genuinamente, ele é baseado em motivos externos ou crenças disfuncionais.

Outro aspecto que influencia enormemente essa decisão é a cultura na qual vivemos. Costumo perguntar aos pacientes: se você vivesse em outro país que tivesse uma cultura que não se importasse muito com o peso corporal e imagem corporal, você ainda assim desejaria emagrecer? Muitos respondem que não, indicando que o desejo de emagrecer não é genuíno por parte do paciente e, por isso, provavelmente, ele sempre acaba abandonando o projeto facilmente. Não há motivação suficiente para tal, afinal, não faz sentido para ele. Mas, tem aqueles pacientes que respondem “sim”, indicando que sim, é um desejo genuíno.

2. O emagrecimento for por amor a si

O emagrecimento tem que acontecer por amor à gente mesmo, e não por ódio. É muito comum as pessoas pensarem: “só vou me amar quando eu emagrecer; só vou cuidar na minha aparência quando eu emagrecer; sou uma gorda mesmo, mereço passar fome para emagrecer”. Com essa forma de pensar, o emagrecimento será um processo muito tóxico e provavelmente durará pouco tempo.

Se você quiser que o seu emagrecimento aconteça de forma saudável, inclusive em termos de saúde mental, e que o resultado seja permanente, será importante você decidir emagrecer justamente porque gosta de si mesmo e deseja cuidar de si. Dessa forma será mais fácil lidar com momentos difíceis do emagrecimento, como os momentos de desmotivação.

3. O emagrecimento for conduzido com gentileza

Além de ser um desejo genuíno e por amor a si, o processo deve ser conduzido com gentileza. O emagrecimento conduzido com base em restrições severas, exercício punitivo, metas não factíveis com a realidade, com base em auto crítica, também não será produtivo. Lembre-se de quando você era criança e estava na escola: você aprendia melhor com o professor gentil ou com o professor agressivo? É comum as pessoas pensarem que, para emagrecer, precisam ser levadas com rédea curta e na base do chicote. Se isso funcionasse as pessoas já estariam magras.

4. Houver expectativas realistas sobre o resultado

Para que o emagrecimento seja uma decisão saudável para ti, esse é outro aspecto importante. Colocar-se metas factíveis e tendo discernimento para entender que nem sempre as metas serão atingidas exatamente como planejamos é muito importante, ou então a pessoa facilmente se sabotará, acreditando que não tem capacidade.

Outro aspecto é importante se trata da meta final de peso. Ainda que você não atinja a meta proposta no começo do processo, porque talvez seu corpo não sustente mais um peso tão baixo, isso não desvalida todo o resultado que você teve até ali. O paciente que não consegue reconhecer isso, coloca tudo a perder, engordando tudo de novo.

5. Não for com o desejo de mudar o corpo.

Além disso, é preciso ter ciência de que emagrecer não vai deixar teu corpo igual à da modelo ou atriz que você admira. É preciso ter discernimento de que estrutura do corpo a gente não muda. Se o quadril é largo, ele vai continuar largo, se a perna é grossa, ela vai continuar grossa. Outro ponto que gera confusão: aceitar nosso corpo do jeito que ele é não significa descuidar do corpo. É importante lembrar que nosso corpo é um conjunto e lembrar de admirar as partes que gostamos também, ao invés de só olhar para as partes que não gostamos.

Então, não é errado emagrecer desde que a decisão faça sentido para você e que você saiba se conduzir com inteligência emocional e com amorosidade no processo.