Nutricionista Adriana Lauffer

SII, SIBO, DF ou SIFO

SII, SIBO, DF ou SIFO?

Você recebeu um diagnóstico de SII ou dispepsia, está seguindo o tratamento médico e nutricional, mas não está sentindo melhora? Talvez o diagnóstico correto seja SIBO, SIFO ou uma sobreposição dessas condições.

Quer consumir esse mesmo conteúdo em vídeo?

Causas e sintomas da SII

A causa da síndrome do intestino irritável (SII), que antes era atribuída principalmente a fatores psicológicos, está sendo compreendida como um distúrbio multifatorial. Uma das razões para essa mudança de paradigma é o reconhecimento de que a disbiose intestinal, incluindo o supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO). Ou seja, o SIBO pode ser uma causa dos sintomas da SII.

Os principais sintomas do SIBO incluem náuseas, flatulência/gases, distensão abdominal, dor abdominal, diarreia e/ou constipação intestinal. Estudos sobre a microbiota intestinal usando antibióticos e probióticos têm demonstrado que nem todos os sintomas em pacientes com SII têm origem no cérebro. Parte dos sintomas surgem, sim, no intestino, fornecendo suporte à teoria de que a SII está relacionada a alterações na microbiota. Recentemente, um estudo mostrou melhora frequente dos sintomas de pacientes com SII após o tratamento para SIBO.

Sobreposição de SII e SIBO

Quais pacientes são mais propensos a apresentar sobreposição entre SII e SIBO? Geralmente são pacientes do sexo feminino, de idade mais avançada, com SII do tipo diarreia predominante, distensão abdominal, flatulência. Além disso, o uso de medicamentos como inibidores de bomba de prótons (prazóis) e narcóticos, e baixos níveis de hemoglobina também são fatores de risco.

A prevalência de SIBO varia amplamente, de 4% a 78% em pacientes com SII e de 1% a 40% em pessoas saudáveis (nem todas apresentam sintomas). Essa variação provavelmente ocorre devido a diferenças na população estudada, critérios de diagnóstico para SII. Essa variação também pode acontecer especialmente devido aos métodos de diagnóstico para SIBO, que ainda são bastante discutidos (abordarei isso em outro post/vídeo).

Sobreposição de SII e dispepsia funcional (DF)

A DF causa dores e desconforto na região superior do abdômen (estômago), sensação de queimação, náuseas, arrotos frequentes, saciedade precoce e inchaço abdominal. Esses sintomas afetam muito a qualidade de vida do paciente.

A SIBO apresenta sintomas que se sobrepõem tanto aos da SII quanto aos da DF. Esse fato sugere uma possível relação causal ou consequencial entre esses distúrbios. O tratamento antimicrobiano da SIBO em pacientes com DF, que podem ou não ter SII, tem demonstrado melhora dos sintomas e normalização dos exames de SIBO. No entanto, a associação entre SIBO, SII e DF ainda é controversa devido à falta de testes diagnósticos amplamente aceitos para SIBO.

SII e o supercrescimento fúngico do intestino delgado (SIFO)

O SIFO é caracterizado pela presença excessiva de fungos no intestino delgado, causando sintomas gastrointestinais. Embora a candidíase seja conhecida por causar sintomas gastrointestinais em pacientes imunocomprometidos ou sob uso de esteroides e antibióticos, estudos recentes indicam que o crescimento excessivo de fungos no intestino delgado também pode causar sintomas gastrointestinais inexplicáveis em indivíduos saudáveis. Esses sintomas incluem arrotos, distensão abdominal, indigestão, náuseas, diarreia e gases.

Dois estudos recentes mostraram que 26% (24 de 94 pacientes) e 25,3% (38 de 150 pacientes) de uma série de pacientes com sintomas gastrointestinais inexplicáveis tinham SIFO. A dismotilidade do intestino delgado e o uso de inibidores da bomba de prótons (prazóis) foram apontados como possíveis fatores predisponentes à SIFO. No entanto, são necessários mais estudos para confirmar essas observações e avaliar a relevância clínica do supercrescimento fúngico em indivíduos saudáveis e pacientes com sintomas gastrointestinais inexplicáveis. Ainda não está claro se a erradicação ou o tratamento da SIFO leva à resolução dos sintomas. Atualmente, uma terapia antifúngica de 2-3 semanas é recomendada e pode ser eficaz na melhora dos sintomas, mas faltam evidências para comprovar sua erradicação.

Outros fatores que influenciam nos sintomas

Além disso, o papel de fatores de confusão, como comorbidades psicológicas, o efeito de emoções, como estresse, medo e ansiedade, medicamentos, práticas alimentares, como má mastigação, e fatores ambientais no microbioma gastrointestinal na saúde e na doença também precisa ser explorado. Afinal, sabe-se que esses aspectos também causarão sintomas similares ao da SIBO ou SII ou DF SIFO.

O que fazer diante disso tudo?

Se você é um paciente que está lendo isso, provavelmente tem buscado compreender seu caso e tratar seus sintomas há algum tempo. É importante entender que a melhora dos sintomas não virá de uma única abordagem, mas sim de um conjunto de medidas. Isso envolve tratamento médico, nutricional (alimentação e suplementação) e até mesmo apoio psicológico para lidar com o estresse e emoções, pois estas também influenciam os sintomas. Tudo está interligado.

Caso o seu médico ou nutricionista não tenha “acertado” o seu tratamento logo de início, isso pode indicar a possibilidade de você ter mais de uma das condições mencionadas aqui, incluindo alergia alimentar. Além disso, devido à semelhança dos sintomas e à natureza inespecífica desses distúrbios, pode ser que ainda não tenham identificado o seu diagnóstico correto. É uma questão de continuar investigando e descartando outros possíveis diagnósticos. Não se esqueça de fazer a sua parte, buscando uma vida equilibrada, com uma alimentação adequada, mastigação adequada, sono de qualidade e cuidando das suas emoções.

Interessado em fazer o protocolo Fodmap?

Aqui abaixo você encontra uma Lista de alimentos low Fodmap em português, baseada nas orientações da Universidade de Monash. Também há um lLivro de receitas low Fodmap e uma sugestão de cardápio low Fodmap para ajudá-lo(a) a seguir a fase de exclusão do protocolo mantendo uma alimentação equilibrada, rica em fibras e variada, mesmo sem orientação profissional. No entanto, é importante ressaltar que, para os passos seguintes do protocolo, é necessário contar com a orientação de um profissional experiente para realizar os testes, interpretá-los e personalizar sua alimentação. Lembre-se de que não é recomendado manter a fase de exclusão da dieta por mais de 6 semanas. Além disso, o acompanhamento profissional é importante, pois alguns pacientes podem ter outras condições clínicas associadas que o protocolo por si só não resolverá completamente, exigindo abordagens adicionais.

Referências:

Current and Future Approaches dor Diagnosing Small Intestinal Dysbiosis in Patients With Symptoms of Functional Dyspepsia, 2022.

Small Intestinal Bacterial Overgrowth: Nutritional Implications, Diagnosis, and Management, 2018

SIBO, 2015

Small intestinal bacterial overgrowth: what it is and what it is not, 2014