Você foi diagnosticado com SII ou dispepsia, faz o tratamento médico e nutricional e não sente melhora? Talvez o seu diagnóstico correto seja SIBO ou SIFO ou haja sobreposição dessas condições.

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Causas e sintomas da SII

A causa da síndrome do intestino irritável (SII), que já foi pensada ser basicamente de origem psicogênica, ou seja, de origem emocional, agora está sendo entendida como um distúrbio multifatorial.
Uma das razões para essa quebra de paradigma é o entendimento (ou, eu diria, finalmente a aceitação) de que a disbiose intestinal, incluindo o supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SBID ou SIBO em inglês), também podem ser causa de sintomas de SII.
Para quem não sabe, os principais sintomas da SIBO são: náusea, flatulência/gases, distensão abdominal, dor abdominal, diarreia e/ou constipação intestinal.
Vários estudos sobre microbiota intestinal usando antibióticos e probióticos tem demonstrado que nem todos os sintomas em pacientes com SII se originam no cérebro, mas sim no intestino, fornecendo mais suporte para a teoria da SII baseada na alteração de microbiota. Inclusive, recentemente um estudo mostrou a melhora frequente dos sintomas de pacientes com SII com tratamento para SIBO.

Sobreposição de SII e SIBO

Quem são os pacientes que mais provavelmente tem sobreposição de SII com SIBO? Pacientes do sexo feminino, de idade mais avançada, com SII tipo diarreia predominante, distensão abdominal e flatulência, uso de medicamentos como prazol e narcóticos, e exame hemoglobina baixa.
Para se ter uma ideia, entre 4% a 78% dos pacientes com SII e 1% a 40% de pessoas saudáveis tem SIBO (nem todas são sintomáticas). Essa grande variação de prevalência provavelmente é devido a diferenças populacionais, critérios diagnósticos para SII e, muito importante, devido aos métodos diagnósticos para SIBO, que ainda são bastante questionados (falarei mais sobre isso em outro post/vídeo).

Sobreposição de SII e dispepsia funcional (DF)

Os sintomas da DF são dores e desconfortos na parede superior do abdômen (na região do estômago), sensação de queimação no estômago, náuseas, arrotos constantes, sensação de saciedade precoce e inchaço abdominal. Estes sintomas são bastantes desconfortáveis e interferem diretamente na qualidade de vida do paciente.
E a SIBO apresenta sintomas que se sobrepõem não só aos sintomas de SII, mas também aos sintomas de DF. Esse fato aponta para a possibilidade de que a SIBO seja a causa ou a consequência desses dois distúrbios.
Dados recentes direcionam o tratamento antimicrobiano da SIBO em pacientes com DF que simultaneamente podem ou não ter SII, e resultam em melhora dos sintomas e normalização dos exames para SIBO.
No entanto, a associação entre SIBO e SII e DF permanece controversa, uma vez que faltam testes diagnósticos amplamente aceitos para SIBO (falarei mais sobre exames para SIBO em outro post/vídeo).

SII e o supercrescimento fúngico do intestino delgado (SIFO)

O SIFO é caracterizado pela presença de um número excessivo de organismos fúngicos no intestino delgado associados a sintomas gastrointestinais. A candidíase é conhecida por causar sintomas gastrointestinais, particularmente em pacientes imunocomprometidos (como pacientes com câncer, por exemplo) ou naqueles que recebem esteróides ou antibióticos. No entanto, apenas recentemente, há literatura emergente de que um crescimento excessivo de fungos no intestino delgado de indivíduos não imunocomprometidos (pessoas ditas saudáveis, normais) pode causar sintomas gastrointestinais inexplicáveis.
Dois estudos recentes mostraram que 26% (24 de 94 pacientes) e 25,3% (38 de 150 pacientes) de uma série de pacientes com sintomas gastrointestinais inexplicáveis tinham SIFO. Os sintomas mais comuns observados nesses pacientes foram arrotos, distensão abdominal, indigestão, náusea, diarreia e gases.
O(s) mecanismo(s) subjacente(s) que predispõe(m) à SIFO não é claro, mas a dismotilidade do intestino delgado e o uso de inibidores da bomba de prótons (prazóis) foram implicados.
No entanto, mais estudos são necessários; tanto para confirmar essas observações quanto para examinar a relevância clínica do supercrescimento fúngico, tanto em indivíduos saudáveis quanto em pacientes com sintomas gastrointestinais inexplicáveis.
É importante ressaltar que ainda não está claro se a erradicação ou seu tratamento leva à resolução dos sintomas; atualmente, um curso de 2-3 semanas de terapia antifúngica é recomendado e pode ser eficaz na melhora dos sintomas, mas faltam evidências para a erradicação.

Outros fatores que influenciam nos sintomas

Além disso, o papel de fatores de confusão como comorbidades psicológicas, o efeito de emoções, como estresse, medo e ansiedade, medicamentos, práticas alimentares, como má mastigação, e fatores ambientais no microbioma gastrointestinal na saúde e na doença também precisa ser explorado, pois também causarão sintomas similares ao da SIBO ou SII ou DF SIFO.

O que fazer diante disso tudo?

Se você é um paciente que está lendo isso, provavelmente vem há bastante tempo procurando entender o seu caso e tratar os seus sintomas. Como você pode ver, a melhora dos sintomas não virá de uma única abordagem. Normalmente é um conjunto: tratamento médico, nutricional (que envolve alimentação e suplementação), e até mesmo psicológico (manejo de estresse e afins), visto que as emoções também tem a sua influencia nos sintomas. Está tudo interligado.
E, se o médico ou nutricionista não acertou o seu tratamento “de primeira”, isso apenas significa que você pode ter mais de uma dessas condições faladas aqui, (e até mesmo alergia alimentar), ou que, por todos esses distúrbios serem muito parecidos e cursarem por sintomas inespecíficos, pode ser que ainda vocês ainda não tenham chegado no alvo correto. É uma questão de continuar investigando e descartando esses outros diagnósticos. Não esqueça de fazer a sua parte, que é buscar uma vida equilibrada, se alimentar bem, mastigar bem, dormir bem, e cuidar das suas emoções.

Referências:

Current and Future Approaches dor Diagnosing Small Intestinal Dysbiosis in Patients With Symptoms of Functional Dyspepsia, 2022.

Small Intestinal Bacterial Overgrowth: Nutritional Implications, Diagnosis, and Management, 2018

Small intestinal fungal overgrowth, 2015

Small intestinal bacterial overgrowth: what it is and what it is not, 2014