Nutricionista Adriana Lauffer

Quando tomar laxante

quando tomar laxante

A constipação intestinal afeta milhões de pessoas em todo o mundo, e muitos recorrem aos laxantes como solução rápida. No entanto, esses medicamentos devem ser usados com cautela e conhecimento. Afinal, quando é realmente indicado tomar laxante? Vamos entender melhor esse assunto tão importante para nossa saúde digestiva.

O que são laxantes e como funcionam

Laxantes são medicamentos que estimulam as contrações intestinais, favorecendo a eliminação das fezes. Sendo assim, eles atuam na absorção e secreção do intestino, modificando a consistência, a forma e a quantidade das fezes para facilitar a evacuação. Existem diferentes tipos de laxantes, cada um com mecanismo de ação específico, e é importante entender essas diferenças para uma escolha adequada.

Os principais tipos incluem:

  • Laxantes formadores de massa: à base de fibras, aumentam o volume e a maciez das fezes.
  • Laxantes osmóticos: atraem água para o intestino, amolecendo as fezes.
  • Laxantes estimulantes: promovem contrações intestinais para acelerar o trânsito das fezes.
  • Laxantes emolientes ou lubrificantes: facilitam a passagem das fezes ao amolecê-las.

Veja mais detalhes no post sobre os tipos de laxantes.

Quando tomar laxante

O uso de laxantes deve ser criterioso e, preferencialmente, sob orientação médica. As principais situações onde seu uso é considerado apropriado incluem:

Em casos de constipação ocasional

Quando medidas não medicamentosas não surtiram efeito, os laxantes podem ser utilizados por curto período para aliviar o desconforto da constipação ocasional. Contudo, não devem ser a primeira escolha nem usados de forma prolongada.

A constipação ocasional é geralmente definida como um episódio transitório de dificuldade para evacuar que ocorre esporadicamente, diferenciando-se da constipação crônica por sua natureza temporária. De acordo com critérios médicos, é caracterizada por períodos de evacuações menos frequentes que o padrão normal do indivíduo, fezes endurecidas ou sensação de evacuação incompleta que duram menos de três meses.

Segundo as diretrizes da Food and Drug Administration (FDA) para medicamentos de venda livre, a constipação ocasional é aquela que ocorre de forma intermitente, não representando um padrão habitual, e que tipicamente se resolve em poucos dias com ou sem intervenção. É para este tipo de constipação que muitos laxantes de venda livre são aprovados para uso por períodos curtos (geralmente não mais que uma semana).

O que pode causar a constipação ocasional

Fatores comuns que podem desencadear a constipação ocasional incluem:

  • Mudanças temporárias na dieta (como menor ingestão de fibras)
  • Viagens e alterações na rotina
  • Desidratação transitória
  • Períodos de imobilidade ou sedentarismo temporário
  • Estresse agudo
  • Efeitos temporários de certos medicamentos

Diferentemente da constipação crônica funcional ou idiopática, que persiste por pelo menos três meses com sintomas presentes em pelo menos 25% das evacuações, a constipação ocasional não preenche os critérios de Roma IV para desordens funcionais intestinais e geralmente responde bem a medidas simples como aumento da ingestão de fibras e líquidos.

Frequência de evacuação na constipação

Não existe um número exato de dias sem evacuar que defina universalmente a constipação, pois a frequência normal de evacuações varia significativamente entre indivíduos. No entanto, existem alguns parâmetros geralmente aceitos pela comunidade médica:

Segundo os critérios de Roma IV, que são padrões internacionais para diagnóstico de distúrbios gastrointestinais funcionais, a constipação funcional é caracterizada por menos de três evacuações por semana, entre outros sintomas, persistindo por pelo menos três meses.

Para a constipação ocasional específicamente, períodos de 3-7 dias sem evacuar geralmente já são considerados clinicamente relevantes e podem justificar intervenção. Uma ausência de evacuações por 7 dias consecutivos é geralmente vista como constipação significativa que merece atenção, especialmente se acompanhada de desconforto ou outros sintomas.

É importante notar que algumas pessoas têm naturalmente um trânsito intestinal mais lento, com evacuações a cada 2-3 dias sendo seu padrão normal. Por isso, uma mudança no padrão habitual de evacuação de um indivíduo é frequentemente mais importante como indicador clínico do que um número absoluto de dias.

Se uma pessoa está sem evacuar há 7 dias e isso representa uma mudança em seu padrão normal, ou se está acompanhado de dor abdominal, inchaço ou outros sintomas de desconforto, é recomendável procurar orientação médica, pois pode indicar constipação que precisa de tratamento ou investigação mais aprofundada de causas subjacentes.

Em quaisquer circunstâncias é bem pouco provável que o uso sistemático de laxantes seja uma opção de “tratamento”. Geralmente, os médicos prescrevem laxantes como medida paliativa para aliviar a constipação, enquanto investigam e tratam a doença subjacente e as causas da constipação.

Para tratamentos específicos

Os laxantes podem ser indicados para pessoas com prisão de ventre devido à falta de atividade física, como idosos acamados, pessoas com hérnias ou hemorroidas graves que causam muita dor para evacuar, e no pós-operatório de cirurgias em que não se pode fazer esforço.

Em preparações para exames

Além de auxiliar na constipação, os laxantes são amplamente usados antes de exames como colonoscopia ou em cirurgias que necessitam do esvaziamento completo do intestino, garantindo que o procedimento prossiga sem intercorrências.

Riscos do uso inadequado de laxantes

O uso excessivo ou inapropriado de laxantes pode trazer consequências sérias para a saúde. Por isso, é fundamental entender os riscos envolvidos.

O uso de laxantes a longo prazo pode causar dependência, já que “o intestino pode passar a funcionar apenas quando é estimulado pelo medicamento”. Além disso, pode causar inflamação intestinal e diminuir a absorção de minerais e vitaminas essenciais para o organismo.

No intestino humano vivem milhões de bactérias que são grandes aliadas da digestão e vivem em um delicado equilíbrio. Assim, quando grande parte delas é eliminada na diarreia causada pelos laxantes, a digestão e a saúde intestinal ficam comprometidas.

Outro perigo significativo é que o uso frequente de laxantes pode mascarar problemas mais graves. Esse hábito pode impedir que o paciente descubra o que de fato está causando a constipação, escondendo potenciais doenças como a diverticulose e o câncer colorretal.

Alternativas aos laxantes

Antes de recorrer aos laxantes, considere medidas mais naturais para melhorar o funcionamento intestinal:

  1. Hidratação adequada: Beba pelo menos 2 litros de água diariamente.
  2. Alimentação rica em fibras: Consuma frutas, verduras, legumes e cereais integrais.
  3. Atividade física regular: O exercício estimula o peristaltismo intestinal.
  4. Regularidade nos hábitos: Responda ao estímulo de evacuar sem adiar.
  5. Redução do estresse: O equilíbrio emocional influencia diretamente a saúde intestinal.
  6. Laxativos naturais caseiros: veja algumas receitas.

Como usar laxantes corretamente

Se for necessário usar laxantes, siga estas orientações para minimizar riscos:

  • Idealmente, os laxantes deverão ser usados apenas por um curto período de tempo, salvo indicação médica. Pare de utilizar o laxante assim que a sua constipação melhorar, pois seu uso excessivo ou prolongado pode causar diarreia, obstrução intestinal, desidratação e alterações nos valores de sais e minerais do seu corpo.
  • É muito importante ingerir muita água enquanto estiver tomando um laxante. Um laxante osmótico pode deixá-lo desidratado, enquanto no caso de um laxante expansor do volume, se não beber bastantes líquidos, as fezes podem tornar-se secas e difíceis de eliminar.

Laxantes para emagrecer

Muitas vezes, as pessoas tomam laxantes com o objetivo de emagrecer, o que é fortemente desencorajado. Afinal, os laxantes podem causar perda de peso ao interferirem na absorção de nutrientes, como gorduras, e pela eliminação de água e sais minerais. No entanto, essa perda de peso resulta apenas da eliminação temporária desses nutrientes do organismo, e os quilos perdidos geralmente são recuperados assim que o uso do medicamento é interrompido.

Outro uso preocupante, é o uso feito por pessoas com comer transtornado ou com transtornos alimentares, como anorexia ou bulimia. O uso acontece após um exagero alimentar, pois o medo mórbido de engordar as leva a tomar laxante na tentativa de impedir a absorção do que comeram.

Conclusão

Os laxantes são medicamentos úteis quando usados corretamente e por períodos limitados. No entanto, não substituem um estilo de vida saudável com alimentação adequada, hidratação e atividade física. Lembre-se sempre: Excepcionalmente, sob adequada orientação médica, os laxantes e congêneres serão aconselháveis como adjuvante inicial no tratamento da constipação intestinal crônica.

O mais importante é entender que a constipação frequente pode ser um sinal de que algo não vai bem com sua saúde, e buscar ajuda médica é fundamental para identificar e tratar a causa subjacente, em vez de apenas mascarar os sintomas com o uso de laxantes.

Gostou desse post? Então, você pode gostar também do post sobre os tipos de laxantes e sobre dieta para constipação intestinal.

Referências

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