A constipação intestinal é um problema que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Caracterizada pela dificuldade para evacuar, fezes endurecidas ou sensação de evacuação incompleta, esta condição pode causar grande desconforto e afetar significativamente a qualidade de vida. Os laxantes, medicamentos desenvolvidos para facilitar a evacuação, são frequentemente utilizados como tratamento.
No entanto, existem diferentes tipos, cada um com seu próprio mecanismo de ação, indicações específicas, benefícios e potenciais efeitos colaterais. Neste post, vou abordar os principais tipos de laxantes disponíveis, como eles funcionam e quando devem ou não ser utilizados.
O que são laxantes e purgantes
Eles são conhecidos popularmente como catárticos, sendo classificados em laxantes e purgantes. No entanto, a classificação farmacológica usa apenas a denominação genérica de laxantes para se referir a todas essas substâncias.
Laxantes são medicamentos que agem nas funções de absorção e secreção do intestino e modificam a consistência, forma e a quantidade das fezes. Os laxantes são mais suaves que os purgantes: demoram mais para agir (de 6 horas a 3 dias), e promovem fezes macias ou pastosas, eventualmente diarreicas. Já os purgantes, são drásticos: agem rapidamente (de 1 a 3 horas), e a evacuação resultante deles é diarreica, aquosa e volumosa.
Tipos de laxantes
Quanto ao mecanismo de ação, esses fármacos podem ser classificados em:
- Formadores de massa;
- Osmóticos;
- Emolientes;
- Estimulantes;
- Lubrificantes;
- Salinos;
- Outros
Dentre os laxantes sintéticos, eles podem ser divididos em duas categorias:
- Osmóticos;
- Apáticos.
Os osmóticos são aqueles agem no formato das fezes, pois atraem água do intestino para a luz intestinal, com a intenção de tornar as fezes mais macias e mais volumosas. Já os apáticos são aqueles que agem na parede do intestino, causando uma irritação na mesma, forçando a evacuação por um aumento da motilidade intestinal, como se o intestino identificasse um corpo estranho e precisasse expeli-lo por meio das fezes.
Veremos agora os tipos de laxantes segundo sua classificação quanto ao mecanismo de ação.
Laxantes osmóticos
O que são e como agem os laxantes osmóticos
Os laxantes osmóticos são substâncias que atraem água para o intestino por um processo de osmose. Este aumento de água no lúmen intestinal amolece as fezes e estimula a peristalse intestinal. Dependendo do tipo específico, o efeito pode começar a partir de 30 minutos até algumas horas após a administração.
Exemplos de laxantes osmóticos
Existem diversos subtipos de laxantes osmóticos:
Sais minerais:
- Sulfato de magnésio (Sal amargo)
- Hidróxido de magnésio (Leite de magnésia)
- Citrato de magnésio
- Fosfato de sódio
Açúcares não absorvíveis:
- Lactulose
- Sorbitol
- Manitol
Polietilenoglicol (PEG):
- PEG com eletrólitos (Trilyte, GoLYTELY)
- PEG 3350 (Muvinlax, Movicol)
Benefícios dos laxantes osmóticos
Os laxantes osmóticos são eficazes para constipação aguda e crônica. O PEG, em particular, é considerado um dos tratamentos de primeira linha para constipação funcional por sua eficácia e segurança. A lactulose, além do efeito laxativo, possui efeitos prebióticos que podem beneficiar a microbiota intestinal. Já os sais de magnésio têm início de ação mais rápido, sendo úteis quando se necessita de uma evacuação mais imediata.
Potenciais efeitos adversos dos laxantes osmóticos
Os principais efeitos adversos dos laxantes osmóticos incluem cólicas abdominais, flatulência e, em doses mais altas, diarreia. Os sais minerais podem causar desequilíbrios eletrolíticos se usados em excesso, especialmente em idosos ou pessoas com função renal comprometida. Por isso, não são recomendados para uso prolongado sem supervisão médica. A lactulose frequentemente causa gases e distensão abdominal nos primeiros dias de uso.
Laxantes emolientes (ou surfactantes)
O que são e como agem os laxantes emolientes
Os laxantes emolientes (ou surfactantes) são agentes que diminuem a tensão superficial das fezes, permitindo que a água e as gorduras se misturem mais facilmente ao conteúdo fecal. Dessa forma, as fezes ficam mais macias e lubrificadas, facilitando sua passagem pelo intestino grosso. Eles não estimulam a motilidade intestinal diretamente.
Exemplos comuns de laxantes emolientes
- Docusato de sódio (Doss)
- Docusato de cálcio
- Óleo mineral
Benefícios dos laxantes emolientes
Estes laxantes são particularmente úteis quando é necessário evitar esforço durante a evacuação, como no caso de pacientes pós-operatórios, após cirurgias anorretais, em pessoas com hemorroidas, fissuras anais ou pós-parto. O início de ação é relativamente rápido para o docusato (24-72 horas) e um pouco mais lento para o óleo mineral (2-3 dias).
Potenciais efeitos adversos dos laxantes emolientes
Os laxantes emolientes são geralmente bem tolerados e causam poucos efeitos colaterais. No entanto, o uso prolongado de óleo mineral pode interferir na absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) e alguns medicamentos. Além disso, existe o risco de pneumonia lipoide se o óleo mineral for aspirado, principalmente em idosos e crianças pequenas. Por essa razão, não é recomendado para esses grupos.
Laxantes irritantes (ou estimulantes)
O que são e como agem os laxantes irritantes
Os laxantes irritantes (ou estimulantes) atuam diretamente na parede intestinal, aumentando a contratilidade muscular (peristaltismo) e a secreção de eletrólitos e água para o lúmen intestinal. São considerados os laxantes mais potentes e de ação mais rápida, geralmente surtindo efeito entre 6 e 12 horas após a ingestão.
Exemplos comuns de laxantes irritantes
Derivados de antraquinonas:
- Sene (Cassia senna)
- Cáscara sagrada
- Ruibarbo
Derivados de difenilmetanos:
- Bisacodil (Dulcolax)
- Picossulfato de sódio
Outros:
- Óleo de rícino
Benefícios dos laxantes irritantes
Os laxantes estimulantes são altamente eficazes para alívio rápido da constipação ocasional. São particularmente úteis em casos de constipação aguda ou para preparo intestinal antes de procedimentos diagnósticos. Devido à sua potência, são frequentemente a escolha para casos resistentes a outros tipos de laxantes.
Potenciais efeitos adversos dos laxantes irritantes
Este grupo de laxantes está associado a mais efeitos adversos do que os demais tipos. Podem causar cólicas abdominais intensas, diarreia, desidratação e desequilíbrios eletrolíticos. O uso prolongado ou abusivo pode levar à dependência, danos no plexo mioentérico intestinal e à chamada “doença dos laxantes”, caracterizada por constipação refratária, necessidade de doses cada vez maiores e disfunção intestinal crônica. Por estes motivos, seu uso deve ser limitado a períodos curtos e sob supervisão médica.
Laxantes lubrificantes
O que são e como agem os laxantes lubrificantes
Os laxantes lubrificantes, como o próprio nome sugere, recobrem as fezes e a mucosa intestinal com uma camada oleosa, facilitando a passagem do conteúdo fecal e prevenindo a absorção excessiva de água pelo cólon. Eles não provocam alterações na motilidade intestinal nem atraem água para o intestino.
Exemplos comuns os laxantes lubrificantes
- Óleo mineral (parafina líquida)
- Vaselina líquida
Benefícios os laxantes lubrificantes
Os laxantes lubrificantes são úteis em casos de fezes muito duras e secas. Também podem ser indicados para pessoas que devem evitar esforço na evacuação. Seu efeito é relativamente rápido, geralmente entre 6 e 8 horas após a administração.
Potenciais efeitos adversos os laxantes lubrificantes
Como já mencionado na seção de laxantes emolientes (onde o óleo mineral também foi incluído), estes laxantes podem interferir na absorção de vitaminas lipossolúveis e medicamentos. O vazamento anal de óleo é um efeito colateral comum, podendo causar desconforto social. O risco de pneumonia lipoide por aspiração também existe, especialmente em pacientes com dificuldade de deglutição, idosos e crianças.
Laxantes salinos
O que são e como agem os laxantes salinos
Os laxantes salinos contêm íons não absorvíveis, como magnésio, fosfato, sulfato ou citrato. Estes íons permanecem no lúmen intestinal e retêm água por osmose, aumentando o volume do conteúdo intestinal e estimulando o peristaltismo. Já foram mencionados na categoria de laxantes osmóticos, mas merecem destaque separado devido às suas características específicas.
Exemplos comuns de laxantes salinos
- Sulfato de magnésio (Sal de Epsom)
- Hidróxido de magnésio (Leite de magnésia)
- Citrato de magnésio
- Fosfato de sódio
Benefícios dos laxantes salinos
Os laxantes salinos têm ação rápida, geralmente entre 30 minutos e 3 horas após a administração. São úteis para evacuação rápida do intestino, como em casos de intoxicação por ingestão de substâncias ou preparo para exames diagnósticos. O sulfato de magnésio e o hidróxido de magnésio também têm a vantagem de serem amplamente disponíveis e de baixo custo.
Potenciais efeitos adversos dos laxantes salinos
O principal risco dos laxantes salinos é o desequilíbrio eletrolítico, especialmente hipermagnesemia em pacientes com função renal comprometida. Podem causar desidratação se usados em excesso ou em pacientes vulneráveis, como idosos. Cólicas abdominais, náuseas e diarreia também são efeitos colaterais comuns.
Laxantes com mecanismos diferentes
Agonistas da serotonina
O que são e como agem: medicamentos como a prucaloprida são agonistas seletivos dos receptores 5-HT4 da serotonina no trato gastrointestinal, aumentando a motilidade intestinal e acelerando o trânsito colônico.
Benefícios: são eficazes para constipação crônica refratária a outros tratamentos, especialmente em mulheres.
Potenciais efeitos adversos: cefaleia, náuseas, dor abdominal e diarreia são os mais comuns. Ao contrário de agonistas da serotonina mais antigos (como a cisaprida), a prucaloprida tem perfil cardiovascular seguro.
Ativadores de canais de cloro
O que são e como agem: a lubiprostona e o linaclotida são medicamentos que aumentam a secreção de cloro e água para o lúmen intestinal, amolecendo as fezes e acelerando o trânsito intestinal.
Benefícios: particularmente úteis para constipação crônica e síndrome do intestino irritável com predominância de constipação.
Potenciais efeitos adversos: a lubiprostona pode causar náuseas, diarreia e dispneia (frequentemente causa diarreia como efeito colateral).
Inibidores do transportador de sódio/hidrogênio 3 (NHE3)
O que são e como agem: são medicamentos como o tenapanor, que inibe o transportador de sódio/hidrogênio 3 (NHE3) no intestino, reduzindo a absorção de sódio e água, aumentando assim o conteúdo líquido no intestino.
Benefícios: aprovados para constipação e síndrome do intestino irritável com constipação.
Potenciais efeitos adversos: diarreia, dor abdominal, distensão e flatulência são os mais comuns.
Escolhendo o laxante adequado
A escolha do laxante mais adequado deve considerar diversos fatores:
- Tipo e gravidade da constipação: a constipação é aguda ou crônica? Leve, moderada ou grave?
- Tempo disponível para efeito: há necessidade de alívio imediato ou abordagem a longo prazo?
- Presença de comorbidades: insuficiência renal, cardíaca, doença inflamatória intestinal
- Idade e condições especiais: gestação, lactação, idade avançada
- Medicamentos concomitantes: possíveis interações medicamentosas
- Histórico de uso prévio: resposta anterior a laxantes específicos
- Preferência do paciente: forma farmacêutica, sabor, conveniência
Riscos do uso inadequado de laxantes
O uso excessivo ou inadequado de laxantes pode levar a várias complicações:
- Dependência e doença dos laxantes: principalmente com laxantes irritantes
- Desequilíbrios hidroeletrolíticos: desidratação, hipocalemia, hiponatremia devido à diarreia causada pelos laxantes
- Disfunção intestinal persistente: dano intestinal causado pelo uso crônico de laxantes irritantes
- Má absorção de nutrientes e medicamentos: especialmente com uso contínuo de óleo mineral
- Danos à mucosa intestinal: com uso prolongado de laxantes irritantes
- Diarreia crônica e incontinência fecal: particularmente em idosos
- Desnutrição: em casos graves de abuso de laxantes
Abordagens não farmacológicas
Antes de recorrer aos laxantes, é importante considerar abordagens não farmacológicas para a constipação:
- Modificação de medicamentos constipantes: quando possível, substituir medicamentos que causam constipação
- Aumento da ingestão de fibras: frutas, vegetais, grãos integrais
- Atividade física regular: melhora a motilidade intestinal
- Estabelecimento de uma rotina intestinal: reserve um horário regular para evacuação
- Técnicas de biofeedback: caso haja disfunção do assoalho pélvico envolvida
- Massagem abdominal: ajuda a estimular o peristaltismo
Conclusão
Os laxantes representam uma importante ferramenta no manejo da constipação, mas seu uso deve ser criterioso e, idealmente, supervisionado por profissionais de saúde. A compreensão dos diferentes tipos de laxantes, seus mecanismos de ação, benefícios e potenciais riscos é fundamental para uma escolha adequada e segura.
Para constipação crônica, os laxantes formadores de massa e os osmóticos são geralmente as primeiras escolhas devido ao seu perfil de segurança mais favorável. Laxantes estimulantes, embora potentes, devem ser reservados para uso de curto prazo em situações específicas.
É importante lembrar que os laxantes tratam os sintomas, não as causas da constipação. Por isso, a identificação e abordagem dos fatores subjacentes, juntamente com modificações no estilo de vida, continuam sendo a base do tratamento da constipação a longo prazo.
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