Há muita discussão em torno do consumo de fibra para tratamento da doença diverticular, seja na diverticulose, seja na diverticulite.

Muitos estudos mostram que o consumo beneficia, muitos mostram que não, já outros não mostram uma conclusão nenhuma. Apesar de ser um tópico totalmente indefinido, criou-se um mito: de que é importante consumir fibras na doença diverticular.

Como surgiu o mito da fibra

A teoria da diverticulite colônica e sua associação com dieta foi trazida pela primeira vez em 1969, por Painter. Ele reportou que a doença diverticular ocorria em pessoas que consumiam uma dieta com pobre em fibras e rica em farinha refinada e açúcar.

Depois, em 1979, quando ele constatou que não havia doença diverticular na África, Painter foi adiante em suas pesquisas conversar com Dennis Parsons Burkitt. Este era um famoso cirurgião e proponente da fibra dietética, compartilhou suas observações sobre o trânsito oral-anal curto entre os africanos.

Essa informação inspirou Painter a teorizar sobre o consumo de fibras na doença diverticular. Ele propôs que uma dieta pobre em fibras relacionada ao que ele chamava como dieta civilizada (ocidental), poderia levar a fezes viscosas.

Fezes viscosas passam pelo cólon mais devagar e, segundo ele, essa diferença na consistência fecal explicaria a incidência de doença diverticular nas nações civilizadas.

Portanto, Painter recomendou uma dieta rica em fibras, que consistia em pão integral, farelos não processados, mingau de aveia, frutas, em substituição à dieta tradicional de pobre em fibras, típica das nações civilizadas, para reduzir o risco de doença diverticular.

Em 1971, Painter e Burkittp publicaram em conjunto sua “hipótese da fibra” para doença diverticular. Essa publicação consistia na sugestão de que uma dieta baseada em alimentos naturais, não refinados, e com fibra adequada poderia prevenir a doença diverticular.

Estudos subsequentes sobre as fibras

Estudos subsequentes encontraram que o consumo de alta quantidade de fibra leva ao volume maior de fezes, menos viscosas e acompanhadas por um trânsito intestinal mais curto. Esses fatores contribuiriam para prevenir o aumento da pressão interna no intestino.

Os “advogados da fibra” sugeriram, portanto, que a mesma ajudaria aumentar o tamanho do lúmen do intestino grosso. Dessa forma, as contrações excessivas que de outra forma seria causada por grandes quantidades de fezes compactadas, seriam suprimidas.

Esses achados levaram ao conceito amplamente aceito de que a doença diverticular estaria fortemente relacionada à constipação.

Controvérsias das fibras

Porém, o mais importante dado publicado até agora em suporte à “hipótese da fibra” é mostrando a correlação entre a quantidade de fezes e o trânsito intestinal.

Em particular, a relação entre volume fecal e tempo de trânsito não é inversa, e sim exponencial, pois não é possível um tempo de trânsito intestinal mais curto com mais de 300 g de fezes. Além do mais, teoricamente, a efetividade da dieta rica em fibras é limitada.

Metanogênese, que é o processo final de degradação anaeróbica da matéria orgânica, tem sido relacionada com a presença de diverticulose. Dito isso, sabe-se que a celulose, um tipo de fibra alimentar, é fermentada por bactérias que produzem metano.

Um estudo muito recente usando uma cápsula com sensor de gás para medir o gás produzido por dietas com várias quantidades de fibras concluiu que dietas ricas em fibra produzem mais gás no intestino grosso do que dietas pobres em fibras.

Portanto, a ingestão de excesso de fibra alimentar pode exacerbar as condições que favorecem o acúmulo de fezes e gás no intestino, ao contrário do que se acredita.

Fibras e doença diverticular

Embora o mecanismo através do qual os divertículos se desenvolvem permanece desconhecida, a hipótese da fibra tem sido amplamente adotada como uma intervenção apropriada. De fato, nos últimos 45 anos a hipótese da fibra se tornou a base do conselho dietético para doença diverticular.

Inclusive, o mais atual guia para pacientes publicado pela Associação Americana de Gastroenterologia formalmente recomenda o consumo diário de pelo menos 25 g fibras na doença diverticular.

Ainda assim, achados de diversos estudos recentes tem lançado dúvidas sobre a validade dessa hipótese, e tais estudos não tem encontrado associação entre dieta pobre em fibra e doença diverticular.

Constipação e doença diverticular

Mais preocupante, no entanto, foi que os resultados de um estudo transversal com 2104 participantes. Os indivíduos tinham entre 30 e 80 anos, com 878 deles com doença diverticular e 1226 sem. O estudo indicou que um alto consumo de fibra foi associado com prevalência de múltiplos divertículos.

Outro estudo (de 2013, antigo já) não encontrou aumento de doença diverticular em indivíduos com trânsito intestinal mais lento ou com sinais de constipação. Além disso, não encontrou associação entre consumo de fibras e diverticulose.  E outro estudo, de 2015, não encontrou correlação entre doença diverticular e constipação.

Os tipos de fibra que mostraram associação significativa com a ocorrência de múltiplos divertículos foram grãos, fibras insolúveis e solúveis.

Enfim, se constipação não causa diverticulose e excesso de fibra causa pode aumentar o número de divertículos, parece que é preciso rever urgentemente as condutas que têm sido prescritas.

Conheça a quantidade de fibras nos alimentos.

Essas orientações não dispensam avaliação e acompanhamento profissional, pois são simplificadas e não são individualizadas. Procure a orientação de um nutricionista especializado em Gastroenterologia. Nutrição e gastroenterologia: uma união muito importante!

Fonte de pesquisa: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5095569/