A urticária crônica espontânea (UCE) é uma condição dermatológica desafiadora caracterizada pelo surgimento persistente de lesões avermelhadas, pruriginosas e edematosas na pele, com ou sem angioedema associado, por um período superior a seis semanas. Apesar de afetar aproximadamente 1% da população mundial, seus mecanismos fisiopatológicos ainda não foram completamente elucidados. Nos últimos anos, no entanto, pesquisas emergentes têm explorado a fascinante conexão entre a saúde intestinal e a manifestação da UCE, abrindo novas perspectivas para o entendimento e tratamento desta condição. Neste artigo, vamos entender esta relação complexa e suas implicações terapêuticas.
O que é urticária crônica espontânea
Conforme dito anteriormente, a UCE é uma condição dermatológica que caracteriza-se pelo aparecimento de lesões cutâneas elevadas, avermelhadas e intensamente pruriginosas, conhecidas como urticas, que surgem sem um fator desencadeante identificável. Diferentemente da urticária aguda, geralmente associada a alergias alimentares, medicamentos ou infecções, a forma crônica espontânea ocorre diariamente ou quase diariamente, por mais de seis semanas, sem uma causa externa evidente.
Uma característica distintiva da urtica é sua natureza transitória: cada lesão permanece no mesmo local por, no máximo, 24 horas, para depois desaparecer e ressurgir em outras áreas do corpo. Em aproximadamente 40% dos casos, a UCE manifesta-se também com angioedema, um inchaço mais profundo da pele que pode afetar lábios, pálpebras e outras regiões do corpo.
A UCE causa significativo impacto na qualidade de vida dos pacientes, gerando não apenas desconforto físico, mas também repercussões psicológicas relacionadas à imprevisibilidade das crises e à visibilidade das lesões. O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado no histórico detalhado e na exclusão de outras causas potenciais.
Causas da urticária crônica espontânea
A UCE, também conhecida como urticária crônica idiopática, é uma condição de pele caracterizada pela presença de urticária (erupções cutâneas elevadas e com coceira) que persiste por mais de seis semanas, sem uma causa óbvia. Embora as causas exatas da UCE ainda não são totalmente compreendidas, várias teorias e fatores podem estar envolvidos:
Reações imunológicas:
Acredita-se que a UCE possa ser uma manifestação de uma resposta imunológica anormal, onde o sistema imunológico reage de forma exagerada a estímulos que normalmente não desencadeariam uma resposta. Isso pode envolver a liberação de substâncias como histamina, que causam as características lesões urticariformes na pele.
Ativação de mastócitos:
Os mastócitos são células envolvidas na resposta imunológica e na liberação de histamina. Na UCE, há sugestões de que os mastócitos podem estar hiperativos, liberando histamina e outras substâncias de forma inadequada, o que leva ao surgimento das urticárias.
Fatores genéticos:
Pode haver uma predisposição genética para desenvolver UCE. Por isso, algumas pessoas podem ter uma maior suscetibilidade a reações imunológicas e a ativação de mastócitos.
Estresse e ansiedade:
Embora não seja uma causa direta, o estresse emocional, ansiedade e outros fatores psicológicos podem desempenhar um papel na piora dos sintomas em algumas pessoas com UCE. O estresse pode aumentar a liberação de substâncias inflamatórias que podem desencadear ou agravar os surtos de urticária.
Infecções:
Em alguns casos, infecções, como aquelas causadas por vírus ou bactérias, podem desencadear episódios de urticária em pessoas predispostas.
Fatores ambientais:
Alguns alimentos, aditivos alimentares, medicamentos, temperaturas extremas, pressão e outras influências ambientais podem desencadear ou agravar os sintomas de UCE em algumas pessoas.
Autoimunidade:
Em alguns casos de UCE, foi observada uma ligação com doenças autoimunes, onde o sistema imunológico ataca erroneamente as próprias células do corpo.
Desregulação dos mediadores inflamatórios:
Além da histamina, outras substâncias inflamatórias podem estar envolvidas na UCE. A desregulação desses mediadores pode contribuir para o desenvolvimento da condição.
O papel da saúde intestinal no equilíbrio imunológico
O trato gastrointestinal representa muito mais que um sistema de digestão e absorção de nutrientes. Afinal, ele abriga aproximadamente 70-80% das células imunes do organismo e constitui uma das maiores superfícies de contato com o ambiente externo. Esta extensa interface é constantemente exposta a antígenos alimentares, microrganismos e diversos compostos, exigindo um sofisticado sistema de regulação que permita a tolerância a elementos benéficos enquanto mantém a capacidade de resposta contra agentes nocivos.
A microbiota intestinal, composta por trilhões de microrganismos, desempenha função crucial neste equilíbrio, como por exemplo:
- Desenvolvimento e maturação do sistema imunológico
- Manutenção da integridade da barreira intestinal
- Metabolização de nutrientes e produção de compostos bioativos
- Modulação de respostas inflamatórias
- Competição com microrganismos patogênicos
Alterações na composição e diversidade da microbiota intestinal, condição conhecida como disbiose, têm sido associadas a diversas doenças inflamatórias e autoimunes. A disbiose pode prejudicar a integridade da barreira intestinal, levando ao aumento da permeabilidade e permitindo a passagem inadequada de antígenos para a circulação sistêmica, fenômeno denominado “leaky gut” (intestino permeável).
O eixo intestino-pele
O conceito de eixo intestino-pele fundamenta-se na comunicação bidirecional entre estes dois órgãos, mediada por mecanismos imunológicos, neurológicos e endócrinos. Esta interação revela-se particularmente relevante na compreensão de diversas dermatoses, incluindo a UCE.
Diversos mecanismos potenciais têm sido propostos para explicar como alterações intestinais poderiam influenciar a manifestação da UCE:
Urticária crônica espontânea e disbiose intestinal
A disbiose intestinal pode promover um estado inflamatório crônico de baixo grau, com liberação sistêmica de citocinas pró-inflamatórias. Este ambiente inflamatório pode sensibilizar mastócitos cutâneos, tornando-os mais reativos a estímulos diversos e favorecendo a degranulação e liberação de histamina, principal mediador da urticária. Sendo assim, alguns mecanismos propostos que poderiam explicar a possível relação entre disbiose intestinal e UCE incluem:
- Inflamação sistêmica: a disbiose intestinal pode levar a um aumento da permeabilidade intestinal (também chamado de leaky gut, conforme explicado abaixo), permitindo que toxinas e produtos metabólicos bacterianos vazem para a corrente sanguínea. Isso pode desencadear uma resposta inflamatória sistêmica que, por sua vez, pode influenciar a função imunológica e desempenhar um papel no desenvolvimento ou agravamento da UCE.
- Ativação imunológica: a microbiota intestinal desempenha um papel crucial na regulação do sistema imunológico. Um desequilíbrio nas bactérias intestinais pode levar a uma ativação anormal do sistema imunológico, potencialmente contribuindo para a inflamação crônica associada à UCE.
- Produção de substâncias bioativas: as bactérias intestinais são capazes de produzir uma variedade de substâncias bioativas, incluindo metabólitos que podem ter efeitos imunomoduladores e inflamatórios. Essas substâncias podem influenciar as vias inflamatórias envolvidas na UCE.
Apesar das teorias promissoras, é importante observar que a pesquisa atual sobre a relação entre disbiose intestinal e UCE é limitada e nem todos os estudos concordam sobre essa conexão. Muitos fatores podem influenciar a saúde da microbiota intestinal, incluindo dieta, estilo de vida, uso de antibióticos e predisposição genética.
Urticária crônica espontânea e leaky gut
O aumento da permeabilidade da barreira intestinal, também conhecido como leaky gut, permite a passagem de antígenos alimentares, toxinas bacterianas e outros compostos potencialmente alergênicos para a circulação. Estes elementos podem ativar o sistema imunológico e desencadear reações cutâneas em indivíduos suscetíveis. Ademais, em condições de permeabilidade intestinal aumentada, há maior absorção de histamina proveniente da dieta, podendo contribuir para a exacerbação dos sintomas da UCE.
Metabolismo da histamina e urticária crônica espontânea
A histamina desempenha papel central na fisiopatologia da urticária. Este mediador pode originar-se não apenas da degranulação de mastócitos, mas também da dieta e da produção bacteriana intestinal. Nesse contexto, a enzima diamino oxidase (DAO), predominantemente expressa na mucosa intestinal, é responsável pela degradação da histamina e, sabe-se que alterações na atividade desta enzima ou o consumo excessivo de alimentos ricos em histamina podem contribuir para níveis elevados deste mediador no organismo.
Ativação de mastócitos e urticária crônica espontânea
Os mastócitos, células efetoras primárias na UCE, são abundantes não apenas na pele, mas também na mucosa intestinal. Fatores de origem intestinal, como metabólitos bacterianos e mediadores inflamatórios, podem ativar mastócitos cutâneos tanto diretamente quanto via mecanismos neuroimunes, promovendo a liberação de histamina e outros mediadores inflamatórios.
Urticária crônica espontânea e desconfortos gastrointestinais
Embora a UCE seja principalmente uma condição de pele caracterizada por erupções urticariformes e coceira, em alguns casos, pode haver relatos de sintomas gastrointestinais associados. No entanto, é importante observar que os sintomas gastrointestinais na UCE não são tão comuns quanto os sintomas cutâneos e não são uma característica típica da doença.
Alguns pacientes com UCE relatam sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, inchaço, diarreia e náuseas. No entanto, a relação entre esses sintomas e a UCE não é completamente compreendida e pode ser complexa. Algumas possíveis explicações para os sintomas gastrointestinais em pessoas com UCE incluem:
- Reações imunológicas: em algumas pessoas, as reações imunológicas que causam a UCE podem também afetar o trato gastrointestinal, levando a sintomas.
- Comorbidades: algumas doenças autoimunes ou inflamatórias que têm a UCE como uma manifestação podem afetar tanto a pele quanto o sistema gastrointestinal.
- Estresse: o estresse emocional pode influenciar tanto os sintomas da UCE quanto os sintomas gastrointestinais, pois o estresse pode afetar vários sistemas do corpo.
- Medicamentos: alguns medicamentos usados para tratar a UCE podem ter efeitos colaterais gastrointestinais.
- Sensibilidade individual: algumas pessoas podem ser mais propensas a desenvolver sintomas gastrointestinais em conjunto com sua UCE devido a sensibilidades individuais.
Se você estiver vivenciando sintomas gastrointestinais junto com sua UCE, é importante discutir esses sintomas com um profissional. Isso pode ajudar a determinar se há uma relação com a UCE ou se há outras condições gastrointestinais que possam estar contribuindo para esses sintomas.
Evidências científicas da relação entre UCE e saúde intestinal
Estudos recentes têm fortalecido a hipótese de uma relação entre a saúde intestinal e a UCE:
Alterações na microbiota intestinal
Pesquisas têm identificado diferenças significativas na composição da microbiota intestinal de pacientes com UCE comparados a controles saudáveis. Há evidências de redução na diversidade microbiana e alterações nas proporções de filos bacterianos importantes, como Firmicutes e Bacteroidetes. Notadamente, espécies bacterianas associadas à produção de butirato (um ácido graxo de cadeia curta com propriedades anti-inflamatórias) frequentemente encontram-se reduzidas em pacientes com UCE.
Marcadores de permeabilidade intestinal
Alguns estudos têm demonstrado aumento dos níveis séricos de zonulina (proteína reguladora das junções intercelulares no epitélio intestinal) em pacientes com UCE, sugerindo comprometimento da integridade da barreira intestinal nestes indivíduos.
Comorbidades intestinais
A UCE apresenta maior prevalência entre pacientes com doenças intestinais como a síndrome do intestino irritável (SII) e doença inflamatória intestinal. Esta associação reforça a hipótese de mecanismos fisiopatológicos compartilhados.
Sensibilidade alimentar e intolerância à histamina
Uma proporção significativa de pacientes com UCE relata melhora dos sintomas após a exclusão de certos alimentos da dieta, particularmente aqueles ricos em histamina ou liberadores de histamina. Estudos têm demonstrado maior prevalência de intolerância à histamina entre pacientes com UCE, caracterizada pela redução na atividade da enzima diamino oxidase.
Conclusão
A emergente compreensão do eixo intestino-pele tem iluminado novos caminhos na abordagem da urticária crônica espontânea. As evidências crescentes sobre a influência da saúde intestinal na manifestação da UCE abrem perspectivas promissoras para abordagens terapêuticas complementares, potencialmente beneficiando pacientes que não obtêm controle satisfatório com tratamentos convencionais.
A visão integrada, que reconhece as complexas interações entre diferentes sistemas do organismo, representa um avanço significativo na compreensão e manejo da UCE. No entanto, estudos adicionais são necessários para caracterizar mais precisamente os mecanismos subjacentes a esta relação e definir estratégias terapêuticas otimizadas.
Enquanto a ciência avança neste campo fascinante, uma abordagem individualizada, que considere tanto os aspectos dermatológicos quanto gastrointestinais, oferece a melhor perspectiva para pacientes com esta condição desafiadora.
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