A urticária crônica espontânea (UCE) afeta aproximadamente 1% da população mundial e caracteriza-se pelo aparecimento de lesões avermelhadas, elevadas e pruriginosas (coceira intensa) que surgem sem causa aparente e persistem por mais de seis semanas. Esta condição impacta significativamente a qualidade de vida dos pacientes, afetando seu bem-estar físico, emocional e social.
Embora a alimentação não seja a causa direta da UCE, diversos estudos têm investigado como certos alimentos podem agravar os sintomas ou até mesmo desencadear crises em pessoas predispostas. Neste post, vamos entender a relação entre a urticária crônica espontânea e a alimentação, fornecendo informações importantes para quem convive com esta condição.
O que é a urticária crônica espontânea?
A urticária crônica espontânea, também conhecida como UCE, é uma doença da pele caracterizada por episódios recorrentes de urticária (erupções cutâneas avermelhadas, elevadas e pruriginosas) que persistem por mais de seis semanas. O termo “espontânea” refere-se ao fato de que as lesões surgem sem causa identificável, diferentemente da urticária induzida, que é desencadeada por fatores específicos como frio, calor, pressão ou exercício físico.
A UCE possui um componente autoimune em muitos casos, com autoanticorpos que ativam mastócitos e basófilos, células do sistema imunológico que liberam histamina e outras substâncias inflamatórias. Esta condição afeta predominantemente adultos entre 20 e 40 anos, sendo mais comum em mulheres do que em homens.
Urticária crônica espontânea e alimentação: há relação?
Embora a alimentação raramente seja a causa principal da urticária crônica espontânea, certos alimentos podem atuar como gatilhos ou agravantes dos sintomas em pessoas que já possuem a condição. Esta relação ocorre por meio de três mecanismos principais:
- Alergia alimentar verdadeira: mediada por anticorpos IgE, ocorre raramente na UCE, sendo mais comum em casos de urticária aguda. Quando presente, os sintomas surgem rapidamente após a ingestão do alimento.
- Intolerância a pseudoalérgenos alimentares: mais comum na UCE, envolve reação a aditivos alimentares, salicilatos naturais, aminas biogênicas (como histamina) e outros compostos presentes em alimentos. Nestes casos, os sintomas podem aparecer gradualmente, dificultando a identificação do gatilho.
- Ativação direta de mastócitos: certos alimentos podem estimular diretamente os mastócitos a liberarem histamina, independentemente de mecanismos alérgicos.
Alimentos que podem desencadear ou agravar a UCE
Diversos alimentos têm sido associados ao agravamento dos sintomas da urticária crônica espontânea. Entre os principais estão:
Alimentos ricos em histamina ou liberadores de histamina
A histamina é uma substância naturalmente presente em muitos alimentos, especialmente os fermentados, envelhecidos ou em decomposição. Em pessoas com UCE, o consumo de alimentos ricos em histamina pode sobrecarregar o sistema de degradação de histamina do organismo, levando ao agravamento dos sintomas. Além disso, certos alimentos, mesmo não contendo grandes quantidades de histamina, podem estimular a liberação desta substância pelos mastócitos.
Aditivos alimentares
Conservantes, corantes e intensificadores de sabor podem desencadear reações similares à alergia (pseudoalérgicas) em pessoas sensíveis:
- Sulfitos (presentes em vinhos, frutas secas, conservas)
- Benzoatos (em refrigerantes, molhos, produtos industrializados)
- Glutamato monossódico (em alimentos prontos, temperos industrializados)
- Corantes artificiais
- Nitrato e nitrito (em embutidos e carnes processadas)
Qual a melhor dieta para urticária crônica espontânea?
Não existe uma dieta universalmente “melhor” para pessoas com urticária crônica espontânea (UCE). Isso porque que as causas subjacentes da UCE podem variar de pessoa para pessoa. No entanto, algumas abordagens dietéticas e considerações podem ser úteis para pessoas que buscam maneiras de gerenciar seus sintomas. Mas, é importante lembrar que você deve discutir qualquer mudança na dieta com um profissional de saúde para garantir que seja segura e adequada às suas necessidades individuais.
Podem ser consideradas algumas abordagens dietéticas:
Dieta com baixo teor de pseudoalérgenos
Estudos têm demonstrado que uma dieta com baixo teor de pseudoalérgenos pode melhorar os sintomas em aproximadamente 30% a 50% dos pacientes com UCE. Esta abordagem envolve a eliminação temporária de aditivos alimentares, alimentos ricos em histamina e alimentos liberadores de histamina por um período de 3 a 4 semanas, seguida pela reintrodução gradual para identificar os gatilhos específicos.
Diário alimentar e sintomas
Manter um registro detalhado dos alimentos consumidos e dos sintomas experimentados pode ajudar a identificar padrões e possíveis gatilhos alimentares. Esta estratégia individualizada é particularmente útil, pois a sensibilidade a alimentos varia significativamente entre diferentes pessoas com UCE.
Alimentos anti-inflamatórios
Embora não existam evidências conclusivas, alguns alimentos com propriedades anti-inflamatórias podem potencialmente beneficiar pessoas com UCE:
- Ômega-3 (encontrado em peixes como salmão, sardinha e linhaça)
- Curcumina (presente no açafrão-da-terra)
- Gengibre
- Frutas e vegetais ricos em quercetina (cebola, maçã, uvas)
- Chá verde
Lembre-se de que cada indivíduo é único, e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Além disso, mudanças na dieta devem ser feitas com orientação médica para garantir que você esteja recebendo todos os nutrientes necessários. Por isso, é recomendável consultar um profissional de saúde qualificado antes de fazer alterações significativas em sua dieta, especialmente se você estiver considerando a exclusão de grupos alimentares inteiros.
Além da alimentação
Embora a alimentação possa desempenhar um papel importante no manejo da UCE em alguns pacientes, é fundamental enfatizar que esta condição geralmente requer uma abordagem terapêutica mais ampla. O tratamento medicamentoso, com anti-histamínicos e, em casos refratários, imunobiológicos, continua sendo o pilar principal do controle da UCE.
Além disso, fatores como estresse, qualidade do sono, atividade física e saúde emocional também influenciam significativamente o curso da doença. Portanto, uma abordagem integrada que combine manejo médico adequado, cuidados com a alimentação e atenção ao bem-estar geral oferece os melhores resultados para os pacientes com UCE.
Conclusão
A relação entre urticária crônica espontânea e alimentação é complexa e altamente individualizada. Embora os alimentos raramente sejam a causa principal da UCE, eles podem atuar como importantes fatores desencadeantes ou agravantes em pessoas suscetíveis. Identificar e evitar gatilhos alimentares específicos, quando presentes, pode contribuir significativamente para o controle dos sintomas e melhoria da qualidade de vida.
No entanto, é fundamental que quaisquer modificações na dieta sejam realizadas sob orientação profissional, como parte de uma abordagem terapêutica integrada. Mais pesquisas são necessárias para esclarecer completamente os mecanismos envolvidos na relação entre alimentação e UCE, assim como para desenvolver estratégias nutricionais mais eficazes para o manejo desta condição desafiadora.
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