Se você tem problemas digestivos, provavelmente já precisou evitar alguns alimentos que pioravam seus sintomas. Isso é completamente normal. Mas e quando essa evitação começa a sair do controle? Quando ela vai além do necessário e começa a afetar sua nutrição e sua vida social? Pode ser que você esteja lidando com algo chamado TARE – Transtorno de Alimentação Restritivo Evitativo. Nesse post vamos entender melhor como se dá essa relação de TARE e problemas gastrointestinais em adultos.
Quando evitar comida vira um problema maior
Imagine a seguinte situação: você tem dor de estômago depois de comer certos alimentos. Naturalmente, você começa a evitá-los. Faz todo sentido, certo? O problema começa quando essa lista de alimentos proibidos cresce cada vez mais, mesmo sem motivo claro. Ou quando você fica tão preocupado em sentir dor que simplesmente para de comer direito.
Estudos mostram que isso é mais comum do que se imagina. Em clínicas especializadas em problemas digestivos, até 24% dos pacientes adultos apresentam sinais de TARE. Isso significa que quase 1 em cada 4 pessoas com problemas gastrointestinais pode estar lidando com essa condição.
A grande questão é que tratar problemas digestivos e tratar TARE são coisas bem diferentes. Ainda hoje muitas recomendações médicas e nutricionais é baseada em evitar alimentos para não ter sintomas. Mas para quem tem TARE, o caminho é justamente o oposto: reaprender a comer esses alimentos aos poucos, de forma gradual e segura.
Como o TARE se desenvolve em quem tem problemas gastrointestinais
Existem três maneiras principais de TARE e problemas digestivos aparecerem juntos:
Tentando controlar os sintomas: Você começa evitando alguns alimentos para não sentir dor, náusea ou desconforto. Até aí, tudo bem. O problema é quando essa evitação cresce demais e fica muito mais rígida do que o necessário. Por exemplo, você começa evitando laticínios porque eles causavam mal-estar, mas aos poucos vai cortando quase tudo da alimentação “por precaução”.
Como consequência dos sintomas: Às vezes, os sintomas digestivos são tão fortes que você simplesmente perde o interesse em comer. A náusea constante faz você esquecer das refeições. Mesmo quando os sintomas melhoram, esse padrão de “não ter vontade de comer” continua. Você simplesmente não sente mais prazer em comer ou esquece de fazer as refeições.
Quando tudo se mistura: Em alguns casos, é difícil saber o que é problema digestivo e o que é TARE. Os sintomas se parecem tanto que até os profissionais de saúde ficam em dúvida. Por exemplo, cerca de 32% das pessoas com sinais de TARE também têm diagnóstico de desconforto após as refeições.
Quais são os sinais de TARE em quem tem problemas gastrointestinais
O padrão mais comum de TARE em adultos com problemas digestivos é o medo. Cerca de 93% das pessoas sentem um medo intenso de que algo ruim aconteça ao comer. Não é só uma preocupação leve – é um pânico real, com ansiedade física, coração acelerado e aquela sensação de que algo terrível vai acontecer.
Algumas pessoas também perdem completamente o interesse pela comida. Elas não sentem fome, param de comer logo no começo das refeições, ou simplesmente esquecem que precisam comer. Isso acontece sozinho em 7% dos casos, mas pode aparecer junto com o medo em outros 14%.
Um dado interessante: quanto mais diagnósticos digestivos você tem, maior a chance de ter TARE também. E pessoas com problemas digestivos costumam relatar mais experiências ruins com comida – episódios de dor intensa, vômitos, engasgos, diarreia, constipação intestinal – que alimentam esse ciclo de medo e evitação.
Quais problemas gastrointestinais mais aparecem junto com TARE
Alguns problemas digestivos têm relação mais forte com TARE do que outros. Veja os principais:
Problemas no estômago: gastroparesia (quando o estômago demora demais para esvaziar) e aquela sensação horrível de estar cheio e desconfortável logo depois de comer estão muito presentes em quem tem TARE.
Dor abdominal crônica: quem sofre com dor de barriga constante tem mais chances de desenvolver padrões alimentares muito restritivos.
Intestino preso: tanto a síndrome do intestino irritável com constipação quanto a prisão de ventre crônica aparecem com frequência em pessoas com TARE.
Diarreias: embora a constipação tenha mostrado associação mais forte, a diarreia também está presente no contexto de sintomas que podem levar ao desenvolvimento de comportamentos alimentares evitativos.
Curiosamente, problemas no esôfago não aumentaram tanto o risco de TARE quanto os outros. Isso mostra que onde você sente os sintomas pode fazer diferença no desenvolvimento desses padrões alimentares.
E agora, como tratar?
Descobrir se você tem “só” um problema digestivo, “só” TARE, ou os dois juntos é essencial para escolher o tratamento certo. E nem sempre é simples saber quando a restrição alimentar ultrapassou os limites do razoável. Os tratamentos para TARE incluem:
Terapia cognitivo-comportamental: Ajuda você a entender e mudar os pensamentos que causam medo de comer. Trabalha principalmente com quem tem muito medo de que algo ruim aconteça ao comer.
Intervenções comportamentais: Ensinam técnicas práticas para você voltar a comer mais alimentos, aos poucos e de forma segura.
Educação sobre o problema: Você aprende o que é TARE, como funciona, e isso já ajuda muito a lidar melhor com a situação.
Manejo da ansiedade: Como a ansiedade está muito presente, aprender a controlá-la é fundamental.
Envolvimento da família: Ter o apoio de quem mora com você faz toda diferença no processo.
O ideal é que você seja acompanhado por uma equipe que tenha psicólogo, médico e nutricionista. Cada profissional olha um aspecto diferente do problema, e juntos conseguem entender melhor o que está acontecendo com você.
Se você tem problemas gastrointestinais e percebe que está evitando cada vez mais alimentos, ou se sente pânico só de pensar em comer certas coisas, vale a pena conversar com seu médico sobre a possibilidade de TARE. Quanto mais cedo identificar, mais fácil fica o tratamento.
O que ainda precisamos descobrir
A ciência ainda está estudando muito sobre essa relação entre TARE e problemas gastrointestinais. Precisamos entender melhor como um leva ao outro, para conseguir identificar o problema mais cedo.
Por exemplo, sabemos que ter muito medo de alimentos por causa dos sintomas gastrointestinais pode ser um sinal de alerta. Também sabemos que algumas pessoas podem ter uma sensibilidade aumentada no intestino, o que piora tanto os sintomas digestivos quanto o TARE.
O importante é reconhecer que evitar alimentos pode ser necessário em alguns momentos, mas quando vira um padrão rígido e exagerado, precisa de atenção especializada. Entender isso pode fazer toda diferença na sua qualidade de vida.
Referências
- Prevalence and Characteristics of Avoidant Restrictive Food Intake Disorder in Adult Neurogastroenterology Patients. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2020; 18(9):1995-2002.
- The clinical presentation of avoidant restrictive food intake disorder in children and adolescents. The Lancet Child & Adolescent Health. 2023; 7(9).
- The diagnosis of avoidant restrictive food intake disorder in the presence of gastrointestinal disorders. International Journal of Eating Disorders.
- Willmott D, et al. A scoping review of psychological interventions and outcomes for avoidant and restrictive food intake disorder. International Journal of Eating Disorders. 2024; 57(1):28-60.
- Kanikowska A, et al. Management of Adult Patients with Gastrointestinal Symptoms from Food Hypersensitivity—Narrative Review. Journal of Clinical Medicine. 2022; 11:7326.
- Fink M, et al. When is Patient Behavior Indicative of Avoidant Restrictive Food Intake Disorder (ARFID) versus Reasonable Response to Digestive Disease? Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2022; 20(6):1241-1250.


