Nutricionista Adriana Lauffer

Porque deixar as leguminosas de molho

Porque deixar leguminosas de molho

Aquela prática tradicional de deixar o feijão de molho durante a noite antes de cozinhá-lo não é apenas um hábito passado de geração em geração sem fundamento. Na verdade, este simples processo culinário traz benefícios nutricionais comprovados cientificamente e pode fazer grande diferença na forma como seu corpo aproveita os nutrientes desses alimentos tão importantes na nossa culinária. Vamos explorar por que o remolho das leguminosas é uma prática que vale a pena manter em sua rotina.

O que acontece durante o remolho?

O processo de remolho não é apenas uma hidratação simples. Durante essas horas em que as leguminosas ficam imersas em água, ocorrem transformações bioquímicas importantes. A água ativa enzimas naturalmente presentes nas sementes, como a fitase, que começa a degradar compostos antinutricionais. Além disso, a água solubiliza vários desses compostos, permitindo que sejam eliminados quando descartamos a água do remolho.

Este processo, tão comum nas cozinhas brasileiras, representa uma tecnologia ancestral de preparo de alimentos que hoje tem sua eficácia comprovada por pesquisas científicas. Estudos demonstram que o remolho por 6 horas pode reduzir 27,9% do ácido fítico, enquanto o remolho por 24 horas pode reduzir até 36% em algumas leguminosas. Ou seja, a eliminação dos fitatos não muda significativamente quando remolho por mais de 6 horas.

Calor do cozimento versus o molho

Embora tanto o remolho quanto o cozimento sejam eficazes na redução de compostos antinutricionais em leguminosas, eles atuam por mecanismos complementares que, quando combinados, oferecem resultados superiores. O calor do cozimento pode reduzir o conteúdo de ácido fítico em até 80% quando aplicado adequadamente, inativando também lectinas e inibidores enzimáticos através da desnaturação proteica, enquanto o remolho trabalha pela solubilização e lixiviação desses compostos na água, permitindo sua eliminação antes mesmo do processo térmico.

A grande vantagem da combinação destes métodos está na sinergia: o remolho pré-ativa enzimas endógenas como a fitase, que hidrolisa parcialmente os fitatos antes do cozimento, além de reduzir significativamente o tempo necessário de exposição ao calor, preservando melhor o perfil nutricional das leguminosas e economizando energia no processo de preparo. Pesquisas mostram que leguminosas previamente remolhadas e depois cozidas apresentam maior digestibilidade proteica e biodisponibilidade mineral do que aquelas que passam apenas por um desses processos isoladamente.

Quais são os compostos antinutricionais?

Mas, afinal, o que são esses tais “antinutrientes” que tanto queremos reduzir? As leguminosas, como feijão, grão-de-bico, lentilha e ervilha, além de serem excelentes fontes de proteínas vegetais, fibras e minerais, também contêm naturalmente compostos que podem interferir na absorção de nutrientes. Entre eles, destacam-se:

  • Fitatos (ácido fítico): formam complexos com minerais como ferro, zinco, cálcio e magnésio, dificultando sua absorção pelo organismo.
  • Taninos: afetam a digestibilidade de proteínas e podem inibir enzimas digestivas.
  • Lectinas: proteínas que podem irritar a mucosa intestinal e interferir na absorção de nutrientes.
  • Inibidores enzimáticos: bloqueiam a ação de enzimas digestivas como a tripsina, prejudicando a digestão proteica.

É importante ressaltar que esses compostos não são “vilões” absolutos. Em pequenas quantidades e no contexto de uma alimentação equilibrada, alguns deles até oferecem benefícios à saúde, como propriedades antioxidantes. No entanto, quando consumidos em grandes quantidades, podem prejudicar a absorção nutricional, especialmente em dietas baseadas predominantemente em grãos e leguminosas.

Benefícios comprovados do remolho

O remolho das leguminosas traz diversos benefícios que melhoram significativamente sua qualidade nutricional:

1. Melhor digestibilidade

A pré-hidratação das leguminosas facilita a quebra de fibras e proteínas durante o cozimento, resultando em alimentos mais macios e de digestão mais confortável. Por isso, pessoas que normalmente sentem desconforto intestinal após consumir feijões e outras leguminosas podem se beneficiar enormemente desta prática.

Pesquisas demonstraram que o remolho de leguminosas em água por 6 horas, seguido de cozimento, reduz significativamente antinutrientes e melhora a digestibilidade proteica.

2. Redução de flatulência e enxofre

Uma das principais queixas relacionadas ao consumo de leguminosas é a produção de gases intestinais. Isso ocorre devido a dois fatores principais: os oligossacarídeos (FODMAPs) e os compostos de enxofre presentes nestes alimentos.

Os oligossacarídeos, como rafinose e estaquiose, não são digeridos pelo organismo humano e acabam sendo fermentados por bactérias intestinais, gerando gases. Similarmente, os compostos de enxofre presentes nas leguminosas também contribuem para a produção de gases com odor característico quando metabolizados pela microbiota intestinal.

O processo de remolho permite que parte desses oligossacarídeos e compostos de enxofre solúveis sejam liberados na água, diminuindo seu teor no alimento final. Ao descartar a água do remolho e cozinhar as leguminosas em água nova, você estará eliminando uma porção significativa desses compostos que causam desconforto digestivo.

O papel do enxofre

É importante destacar que o enxofre, um mineral presente naturalmente nas leguminosas, também desempenha um papel na produção de gases intestinais. Diferentemente dos fitatos e lectinas, o enxofre não é considerado um antinutriente, mas sim um mineral essencial para várias funções biológicas do organismo. No entanto, em algumas pessoas, o metabolismo bacteriano do enxofre no intestino pode gerar gases como o sulfeto de hidrogênio, causando desconforto abdominal e flatulência com odor fecal mais intenso.

Durante o processo de remolho, parte do enxofre presente nas leguminosas, por ser solúvel em água, é liberado no líquido. Ao descartar a água do remolho, consequentemente eliminamos também parte desse mineral. Embora a remoção do enxofre não seja o objetivo principal do remolho (já que é um nutriente importante), essa redução parcial pode beneficiar pessoas com sensibilidade digestiva, permitindo que aproveitem os benefícios nutricionais das leguminosas com maior conforto.

O papel dos Fodmaps

Deixar as leguminosas de molho pode ajudar a reduzir o teor de FODMAPs (Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides, and Polyols) presentes nesses alimentos. Os FODMAPs são carboidratos de cadeia curta que podem ser fermentados no intestino, causando sintomas gastrointestinais em algumas pessoas, especialmente aquelas com síndrome do intestino irritável (SII) ou sensibilidade aos FODMAPs.

Ao deixar as leguminosas de molho, ocorre uma pré-fermentação, onde os FODMAPs solúveis em água são liberados na água de molho. Portanto, descartar essa água antes do cozimento pode ajudar a reduzir a quantidade de FODMAPs nas leguminosas. Concluindo, ao deixar certos alimentos de molho em água, é possível reduzir o teor de FODMAPs, uma vez que parte desses compostos solúveis em água é liberada na água de molho.

No entanto, é importante lembrar que cada pessoa pode reagir de forma diferente aos FODMAPs, e algumas pessoas podem tolerar as leguminosas mesmo sem deixá-las de molho. Além disso, vale ressaltar que nem todos os FODMAPs são eliminados completamente durante o processo de molho, e o grau de redução pode variar dependendo do alimento em questão. É sempre recomendado consultar um nutricionista especializado para orientações específicas sobre a dieta baixa em FODMAPs. Se você tem sensibilidade aos FODMAPs, é recomendado consultar um nutricionista especializado para orientação individualizada.

3. Maior biodisponibilidade de minerais

A redução dos níveis de fitatos é um dos benefícios mais importantes do remolho. O ácido fítico forma complexos com minerais essenciais como ferro, zinco e cálcio, tornando-os indisponíveis para absorção.

Estudos demonstram que a combinação de métodos como remolho e cozimento pode reduzir o conteúdo de ácido fítico em leguminosas em até 80%. Esta redução é particularmente importante para vegetarianos, veganos e populações que dependem fortemente de proteínas vegetais, pois melhora significativamente a absorção de ferro e zinco, minerais frequentemente deficientes nestes grupos.

4. Redução do tempo de cozimento

Um benefício prático e econômico do remolho é a redução no tempo de cozimento. Leguminosas pré-hidratadas necessitam de menos tempo para ficarem macias, o que economiza energia e preserva melhor os nutrientes termossensíveis.

Precisa deixar o arroz integral de molho?

O arroz integral não precisa ser deixado de molho para eliminar compostos antinutricionais, como é recomendado para algumas leguminosas. Os compostos antinutricionais presentes no arroz integral, como os fitatos, podem ser reduzidos durante o processo de cozimento.

Portanto, no caso do arroz integral, é suficiente cozinhá-lo adequadamente para torná-lo mais nutritivo e melhorar a digestibilidade, pois o cozimento em água quente ajuda a inativar os compostos antinutricionais e facilita a absorção dos nutrientes presentes no arroz integral. No entanto, se você preferir deixar o arroz integral de molho por um período antes de cozinhar, isso pode ajudar a reduzir o tempo de cozimento e melhorar a textura.

Como fazer o remolho corretamente

Para obter o máximo benefício do processo de remolho, siga estas orientações:

  1. Lave bem as leguminosas em água corrente para remover resíduos superficiais.
  2. Coloque-as em um recipiente não-metálico (vidro ou cerâmica são ideais).
  3. Cubra com água filtrada na proporção de 3:1 (três partes de água para uma parte de leguminosa).
  4. Deixe em temperatura ambiente pelo tempo recomendado (ou refrigeradas em climas muito quentes).
  5. Descarte a água do remolho e enxágue bem antes do cozimento.
  6. Cozinhe em água nova.

Tempos de remolho recomendados

O tempo ideal de remolho varia conforme o tipo de leguminosa:

  • Feijões (preto, carioca, vermelho): 8-12 horas
  • Grão-de-bico: 12-24 horas (idealmente com adição de bicarbonato de sódio)
  • Lentilhas (exceto vermelhas): 4-6 horas
  • Ervilhas secas: 6-8 horas
  • Soja: 12-24 horas (com troca de água a cada 8 horas)

Leguminosas menores e mais macias como lentilhas vermelhas e ervilhas partidas geralmente não necessitam de remolho prévio.

Considerações importantes

Embora o remolho seja benéfico, algumas considerações merecem atenção:

  • Perda de nutrientes solúveis em água: vitaminas do complexo B e alguns minerais podem ser parcialmente perdidos na água de remolho. No entanto, os benefícios da redução de antinutrientes geralmente superam essas perdas.
  • Produtos industrializados: leguminosas enlatadas ou em conserva já passaram por processos térmicos que reduzem parcialmente os compostos antinutricionais, apenas recomenda-se enxaguá-las bem antes do consumo.
  • Abordagem equilibrada: o consumo de leguminosas, mesmo sem remolho prévio, ainda é benéfico no contexto de uma dieta variada e equilibrada. Os antinutrientes apenas se tornam preocupantes quando há consumo excessivo de leguminosas ou grãos em dietas pouco diversificadas.

Conclusão

O processo de remolho das leguminosas representa uma prática culinária simples mas significativa para maximizar os benefícios nutricionais e minimizar potenciais efeitos adversos destes alimentos extremamente nutritivos. Esta técnica ancestral, agora respaldada pela ciência nutricional moderna, permite que aproveitemos plenamente as proteínas vegetais, fibras, minerais e vitaminas das leguminosas com maior conforto digestivo e melhor absorção de nutrientes.

Portanto, da próxima vez que for preparar seu feijão, grão-de-bico ou outras leguminosas, lembre-se: aquelas horas de molho não são apenas tradição, mas ciência aplicada à sua alimentação diária!

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Referências

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  7. National Center for Biotechnology Information (2020). A review on traditional technology and safety challenges with regard to antinutrients in legume foods.
  8. Jansen, M. et al. (2020). Is There Such a Thing as “Anti-Nutrients”? A Narrative Review of Perceived Problematic Plant Compounds.