Nutricionista Adriana Lauffer

Fitatos nos Feijões

fitatos e os feijões

Se você já pesquisou sobre nutrição, provavelmente já ouviu falar dos fitatos – aqueles compostos que podem “roubar” minerais do nosso corpo. E se você é fã de feijão (como todo brasileiro deveria ser!), pode ter se perguntado: será que existe diferença na quantidade de fitatos entre os diferentes tipos de feijão?

O que são os fitatos?

Os fitatos são compostos naturais encontrados em leguminosas, grãos e sementes. Eles funcionam como uma espécie de “cofre” onde a planta guarda fósforo para usar quando precisar germinar. O problema é que, quando comemos esses alimentos, os fitatos podem se ligar a minerais importantes como ferro, zinco e cálcio, dificultando sua absorção pelo nosso organismo.

A quantidade de fitatos entre os diferentes tipos de feijão

Aqui vem a boa notícia: a diferença na quantidade de fitatos entre os feijões não é tão significativa quanto você pode imaginar.

O feijão preto e o vermelho tendem a ter concentrações ligeiramente mais altas de fitatos comparados ao feijão branco ou fradinho. Mas estamos falando de uma diferença de apenas 10-30% entre eles.

Para colocar em perspectiva: se o feijão preto tem 100mg de fitatos por 100g, o feijão branco pode ter entre 70-90mg. Na prática do dia a dia, essa diferença é bem pequena.

O que realmente faz diferença

Se você quer reduzir os fitatos do seu feijão, foque no preparo, não no tipo. Aqui estão as estratégias que realmente funcionam:

  • Deixe de molho por ~12 horas antes de cozinhar. Esse simples passo pode reduzir significativamente o conteúdo de fitatos.
  • Troque a água algumas vezes se possível.
  • Cozinhe bem o feijão. O calor quebra boa parte dos fitatos, então não tenha pressa no cozimento. Um feijão bem cozido pode ter 50-80% menos fitatos que o grão cru.
  • Descarte a água do molho antes de cozinhar, pois parte dos fitatos fica na água, então não aproveite essa água para o cozimento.

Mitos sobre remolho

Adicionar algumas gotas de limão ou vinagre podem ajudar a ativar enzimas naturais que quebram os fitatos, mas o efeito é modesto (cerca de 20-30% de redução adicional). Não é essencial, mas pode ser uma pequena otimização.

E aqui vai mais um esclarecimento importante: você pode cozinhar com a panela tampada normalmente – os fitatos não evaporam com o vapor! Eles se decompõem pelo calor, mas não “saem voando” pela tampa. Aliás, cozinhar tampado é melhor: economiza energia e mantém a temperatura mais estável.

Outros fatores que influenciam

Algumas coisas que podem afetar o conteúdo de fitatos e que fogem do nosso controle:

  • Frescor do produto: feijões muito velhos tendem a concentrar mais fitatos
  • Variedade específica: mesmo dentro do feijão preto, diferentes cultivares podem variar mais entre si do que em relação a outros tipos
  • Condições de cultivo: solo, clima e práticas agrícolas influenciam o conteúdo final

Os fitatos são sempre vilões?

Antes de declarar guerra aos fitatos, é importante saber que eles não são completamente prejudiciais. Estes compostos também têm propriedades antioxidantes e podem ajudar na prevenção de alguns tipos de câncer e doenças cardíacas.

O segredo está no equilíbrio: uma dieta variada, com preparo adequado dos alimentos, geralmente resolve qualquer questão relacionada à absorção de minerais.

Conclusão prática

Se você está escolhendo entre feijão preto, carioca, branco ou fradinho, pode ficar tranquilo e escolher pelo sabor, preço ou preferência pessoal. A diferença nos fitatos é pequena e facilmente compensada com o preparo correto.

Invista seu tempo e energia em:

  • Deixar o feijão de molho adequadamente
  • Cozinhar bem
  • Manter uma alimentação variada
  • Não esquecer de outras fontes de ferro e zinco na dieta

No final das contas, qualquer feijão bem preparado é uma excelente fonte de proteínas, fibras e minerais. E convenhamos: feijão é uma das bases da nossa culinária brasileira – não tem por que complicar algo tão gostoso e nutritivo!

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Referências

  1. Kumari, S. (2018). Effect of soaking on anti-nutritional factors in food legumes.
  2. El-Hady, E.A.A. & Habiba, R.A. (2003). Effect of soaking and extrusion conditions on antinutrients and protein digestibility of legume seeds.
  3. Gupta, R.K., Gangoliya, S.S. & Singh, N.K. (2015). Reduction of phytic acid and enhancement of bioavailable micronutrients in food grains.
  4. Healthline (2023). How to Reduce Antinutrients in Foods.
  5. Harvard T.H. Chan School of Public Health (2024). Are Anti-nutrients Harmful?
  6. Udensi, E.A., Ekwu, F.C. & Isinguzo, J.N. (2007). Antinutrient factors of vegetable cowpea seeds during thermal processing.
  7. National Center for Biotechnology Information (2020). A review on traditional technology and safety challenges with regard to antinutrients in legume foods.
  8. Jansen, M. et al. (2020). Is There Such a Thing as “Anti-Nutrients”? A Narrative Review of Perceived Problematic Plant Compounds.