Nutricionista Adriana Lauffer

Intolerância à histamina e alimentação

Intolerância à histamina e alimentação

Você já sentiu dores de cabeça, ataques de urticária ou problemas digestivos após refeições específicas, mas todos os testes de alergia deram negativo? Possivelmente, você está enfrentando uma condição conhecida como intolerância à histamina, que afeta cerca de 1% da população mundial e permanece frequentemente subdiagnosticada. Neste artigo, vamos entender o universo desta condição, focando especialmente na relação entre a intolerância à histamina e a alimentação.

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O que é histamina?

A histamina é uma molécula biológica multifuncional que desempenha papéis cruciais em diversos processos fisiológicos no corpo humano. Ela é classificada como uma amina biogênica, derivada do aminoácido histidina através de um processo de descarboxilação.

Esta substância atua como um importante neurotransmissor e mediador químico, sendo produzida e armazenada principalmente em mastócitos (células do sistema imunológico), basófilos (um tipo de glóbulo branco), células enterocromafins do trato gastrointestinal e neurônios histaminérgicos localizados no hipotálamo.

As funções da histamina no organismo são diversas e incluem:

  1. Resposta imunológica e inflamatória: a histamina é liberada durante reações alérgicas e inflamatórias, promovendo a dilatação dos vasos sanguíneos (vasodilatação), aumento da permeabilidade vascular e contração da musculatura lisa.
  2. Regulação da secreção gástrica: no estômago, estimula a produção de ácido clorídrico pelas células parietais.
  3. Neurotransmissão: no sistema nervoso central, atua como neurotransmissor envolvido na regulação do ciclo sono-vigília, apetite, comportamento, aprendizagem e memória.
  4. Modulação da resposta imune: influencia a atividade de várias células imunológicas e a produção de citocinas.

A histamina exerce seus efeitos através de quatro tipos de receptores (H1, H2, H3 e H4) distribuídos em diferentes tecidos do corpo. Cada receptor, quando ativado, desencadeia respostas fisiológicas específicas. Por exemplo, os receptores H1 mediam efeitos como coceira, vasodilatação e broncoconstrição, enquanto os receptores H2 estão envolvidos na secreção ácida gástrica.

Além de ser produzida endogenamente pelo corpo, a histamina também está presente em diversos alimentos, especialmente naqueles fermentados, envelhecidos ou em decomposição. Em condições normais, enzimas específicas como a diamina oxidase (DAO) e a histamina N-metiltransferase (HNMT) metabolizam a histamina para prevenir seu acúmulo excessivo no organismo.

Quando esses mecanismos de degradação falham ou a ingestão de histamina é muito elevada, podem surgir sintomas de intolerância à histamina ou, em casos mais graves, intoxicação por histamina, como observado após o consumo de peixes deteriorados (síndrome escombroide).

O que é a intolerância à histamina?

A intolerância à histamina, também chamada de histaminose alimentar ou enteral, ocorre quando nosso corpo não consegue degradar adequadamente a histamina consumida através dos alimentos. Ao contrário das alergias alimentares, que envolvem reações imunológicas mediadas por IgE, a intolerância à histamina resulta principalmente de uma deficiência na atividade da enzima diamina oxidase (DAO), responsável pela metabolização da histamina no trato digestivo.

Ao ingerirmos alimentos ricos em histamina, em condições normais, a enzima DAO (diaminoxidase), presente no intestino delgado, degrada rapidamente a histamina, impedindo que ela seja absorvida em quantidades significativas pela corrente sanguínea. No entanto, em pessoas com intolerância à histamina, este processo falha, permitindo que a histamina entre na circulação e desencadeie sintomas por todo o corpo.

Resumindo, quando esta enzima não funciona corretamente, a histamina se acumula no organismo, desencadeando uma cascata de sintomas que podem afetar múltiplos sistemas. Curiosamente, os sintomas frequentemente imitam reações alérgicas, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador.

O que contém histamina

A histamina está naturalmente presente em muitos alimentos e bebidas, sendo produzida principalmente durante processos de fermentação, amadurecimento e decomposição. Portanto, alimentos envelhecidos, fermentados ou mal armazenados geralmente contêm altos níveis desta substância.

Além dos alimentos que naturalmente contêm histamina, existem também aqueles que, embora não possuam a substância, podem liberar histamina armazenada em células do corpo (principalmente mastócitos) ou inibir a atividade da enzima DAO. Estes são conhecidos como “liberadores de histamina” e “bloqueadores de DAO”, respectivamente.

Para compreender melhor o impacto da alimentação na intolerância à histamina, é crucial conhecer os três principais grupos de alimentos que influenciam esta condição:

1. Alimentos ricos em histamina

Estes são alguns alimentos que naturalmente contêm altos níveis de histamina e devem ser evitados ou limitados por pessoas com intolerância:

  • Alimentos fermentados: queijos maturados, iogurte, kefir, kombucha, chucrute, kimchi
  • Bebidas alcoólicas: especialmente vinho tinto, cerveja e champanhe
  • Alimentos em conserva ou defumados: atum enlatado, sardinha, arenque
  • Carnes processadas: salame, presunto, bacon, linguiça
  • Vegetais específicos: tomate, espinafre, berinjela
  • Frutas específicas: abacate, morango, frutas cítricas
  • Outros: chocolate, vinagre, molho de soja, extrato de levedura

2. Liberadores de histamina

Estes são alguns alimentos que estimulam a liberação de histamina pelas células do corpo:

  • Frutas cítricas
  • Clara de ovo
  • Morangos
  • Abacaxi
  • Tomate
  • Mariscos
  • Chocolate
  • Aditivos alimentares e corantes artificiais

3. Bloqueadores da enzima DAO

Estes são alguns alimentos ou itens que inibem a atividade da enzima DAO, reduzindo a capacidade do corpo de metabolizar histamina:

  • Refrigerantes com cafeína
  • Álcool (além de conter histamina, também inibe a DAO)
  • Chá preto, chá verde e mate
  • Energéticos
  • Alguns medicamentos

Café e histamina

A cafeína presente no café pode atuar como um liberador de histamina no organismo e também como um potencial inibidor da enzima DAO (diamina oxidase) em pessoas sensíveis. Estudos mostram que, embora o café em si não contenha níveis elevados de histamina, seus compostos bioativos podem interferir no metabolismo da histamina de diferentes maneiras. Uma pesquisa publicada no Journal of Allergy and Clinical Immunology mostrou que a cafeína pode aumentar a liberação de histamina por mastócitos em indivíduos suscetíveis.

A sensibilidade ao café varia consideravelmente entre pessoas com intolerância à histamina. Alguns indivíduos podem tolerar pequenas quantidades sem problemas, enquanto outros experimentam sintomas imediatos mesmo com uma exposição mínima.

As seguintes recomendações são apropriadas: consumir café com moderação, optar por versões descafeinadas, manter um diário alimentar para identificar gatilhos pessoais e buscar orientação profissional para um plano alimentar personalizado. Algumas pessoas também se beneficiam de não consumir café em jejum, pois isso pode intensificar a resposta do corpo.

A dieta anti-histamínica

O manejo nutricional da intolerância à histamina segue três fases essenciais: inicialmente, a fase de eliminação (4-6 semanas) remove temporariamente todos os alimentos problemáticos relacionados à histamina, enquanto o paciente mantém um diário detalhado de alimentação e sintomas, com estudos mostrando que aproximadamente 70% dos pacientes experimentam melhora significativa em quatro semanas.

Em seguida, durante a fase de reintrodução controlada, os alimentos são gradualmente reincorporados um a um, com intervalos de pelo menos 3 dias entre cada teste, permitindo identificar gatilhos específicos e níveis de tolerância individual. Por fim, na fase de manutenção, desenvolve-se um plano alimentar personalizado e flexível a longo prazo, evitando alimentos problemáticos identificados, mas permitindo consumo moderado dos bem tolerados, reconhecendo que a tolerância pode flutuar devido a fatores como estresse, ciclo menstrual e medicamentos.

O copo cheio de histamina

Um conceito útil para compreender a intolerância à histamina é o do “copo cheio de histamina”. Imagine que cada pessoa possui um copo com capacidade limitada para histamina. Quando o copo está cheio e transborda, os sintomas aparecem.

O tamanho do copo varia de pessoa para pessoa e pode flutuar ao longo do tempo. Fatores como estresse, infecções, alergias sazonais e ciclo menstrual podem temporariamente reduzir o tamanho do copo, tornando a pessoa mais sensível à histamina.

Este conceito explica por que algumas pessoas podem ocasionalmente consumir pequenas quantidades de alimentos ricos em histamina sem apresentar sintomas, enquanto em outros momentos, a mesma quantidade pode desencadear reações intensas. Compreender o tamanho do seu próprio “copo de histamina” é fundamental para manejar de forma eficaz a intolerância à histamina no dia a dia.

Histamina e reações alérgicas clássicas

A histamina é um mediador chave nas reações alérgicas, e sua liberação pode ser desencadeada por diversos tipos de alérgenos, não apenas por alimentos.

Em reações alérgicas clássicas mediadas por IgE, quando um alérgeno específico entra em contato com anticorpos IgE ligados à superfície de mastócitos e basófilos, ocorre a degranulação dessas células e a consequente liberação de histamina e outros mediadores inflamatórios.

Os alérgenos inalados como pólens, ácaros da poeira e epitélio de animais domésticos são exemplos comuns de desencadeadores de liberação de histamina no sistema respiratório, provocando sintomas como espirros, coriza, congestão nasal e dificuldade respiratória.

Medicamentos como penicilina, sulfonamidas (sulfa) e ácido acetilsalicílico (aspirina) podem causar reações alérgicas em pessoas sensíveis, resultando na liberação de histamina que pode manifestar-se como urticária, angioedema, broncoespasmo ou, em casos graves, anafilaxia.

Os venenos de insetos, particularmente de himenópteros como abelhas, vespas e formigas, também são potentes indutores da liberação de histamina, podendo causar desde reações locais até sistêmicas, dependendo da sensibilidade individual.

A diferença importante a notar é que, nestas situações, estamos falando de verdadeiras reações alérgicas (hipersensibilidade tipo I), enquanto a intolerância à histamina está relacionada à incapacidade de metabolizar adequadamente a histamina ingerida ou produzida, sem envolvimento do sistema imunológico na mesma medida.

Considerações Finais

A intolerância à histamina representa um desafio significativo, mas com conhecimento, planejamento e apoio adequados, é possível gerenciá-la eficazmente. Uma abordagem alimentar personalizada, complementada por estratégias adicionais, pode transformar radicalmente a qualidade de vida dos afetados por esta condição.

Se você suspeita sofrer de intolerância à histamina, é fundamental buscar orientação de profissionais de saúde especializados, como médicos alergistas, gastroenterologistas e nutricionistas com experiência nesta área. Lembre-se: o manejo da intolerância à histamina é uma jornada pessoal, e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.

Por fim, mantenha-se atualizado sobre as pesquisas mais recentes e conecte-se com comunidades de apoio – compartilhar experiências e conhecimentos pode ser incrivelmente valioso nesta jornada de saúde.

Gostou desse post? Então você poderá gostar do post sobre Causas e diagnóstico da intolerância à histamina.

Pensando em fazer a dieta anti-histamínica?

Aqui você encontra um Guia Alimentar para Intolerância à Histamina que vem com uma lista completa e segura de alimentos, bem como uma sugestão de cardápio.

Referências

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