“Evite sementes, pipoca, nozes e grãos integrais.” Esta tem sido uma recomendação padrão para pessoas diagnosticadas com doença diverticular por décadas. Consequentemente, muitos pacientes que recebem esta orientação no momento do diagnóstico passam anos privando-se desses alimentos nutritivos por medo de desencadear uma crise de diverticulite.
No entanto, pesquisas científicas contemporâneas têm consistentemente demonstrado que esta restrição não apenas carece de evidências, mas também pode privar os pacientes de alimentos benéficos para a saúde intestinal. Neste artigo, vamos desmistificar esta crença arraigada e explorar o que a ciência atual realmente nos diz sobre alimentação e doença diverticular.
Prefere consumir esse conteúdo em vídeo?
na doença diverticular
Entendendo a doença diverticular (diverticulose)
Antes de abordarmos o mito alimentar, é importante compreender o que é a doença diverticular. Os divertículos são pequenas bolsas ou saculações que se formam na parede do cólon, especialmente no cólon sigmoide, que é a porção final do intestino grosso. Assim, a simples presença desses divertículos é chamada de diverticulose, uma condição extremamente comum que afeta mais de 50% das pessoas acima de 60 anos nos países ocidentais.
A diverticulite, por sua vez, ocorre quando um ou mais desses divertículos se inflamam ou infectam, causando sintomas como dor abdominal (geralmente no quadrante inferior esquerdo), febre, alterações no hábito intestinal, náuseas e, em casos mais graves, complicações como abscesso, perfuração ou obstrução intestinal.
A origem do mito
A recomendação para evitar sementes e grãos surgiu da teoria de que estas pequenas partículas poderiam ficar presas nos divertículos, obstruindo-os e provocando inflamação. Esta ideia, embora faça sentido intuitivo, nunca foi comprovada cientificamente. Na verdade, em cirurgias para tratar diverticulite complicada, raramente são encontradas sementes ou outros resíduos alimentares causando obstrução nos divertículos.
Além disso, esta recomendação dietética originou-se em uma época em que a compreensão sobre a fisiopatologia da doença diverticular era limitada. Hoje, sabemos que fatores como alterações na microbiota intestinal, inflamação crônica de baixo grau, anormalidades da motilidade colônica e predisposição genética desempenham papéis muito mais significativos no desenvolvimento da diverticulite do que pequenas partículas alimentares.
O que dizem os estudos atuais
Estudos recentes têm consistentemente contestado a necessidade de evitar sementes, nozes e grãos integrais na doença diverticular. Um dos trabalhos mais significativos nesta área foi o estudo de coorte publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), que acompanhou mais de 47.000 homens por 18 anos. Surpreendentemente, os pesquisadores descobriram que aqueles que consumiam mais nozes e pipoca tinham um risco 20% menor de desenvolver diverticulite em comparação com aqueles que consumiam menos desses alimentos.
Outro estudo prospectivo publicado no American Journal of Gastroenterology analisou a dieta de mais de 700 participantes e não encontrou associação entre o consumo de sementes, nozes ou milho e o risco de complicações diverticulares.
Portanto, as diretrizes mais recentes da American Gastroenterological Association (AGA) e da American Society of Colon and Rectal Surgeons (ASCRS) não recomendam mais a restrição de sementes, nozes ou grãos para prevenir ataques de diverticulite, reconhecendo a falta de evidências científicas para tal prática.
O maior estudo realizado
O maior estudo sobre o assunto foi um estudo de coorte publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), que acompanhou mais de 47.000 homens por 18 anos. Esse estudo teve como objetivo determinar se o consumo de oleaginosa, milho e pipoca está associado com diverticulite e sangramento dos divertículos. Para isso, os pesquisadores utilizaram os dados de um estudo de coorte em que os participantes foram acompanhados de 1986 a 2004.
O estudo incluiu 47.228 homens entre 40 a 75 anos que, quando começaram o estudo, não tinham diverticulose ou complicações devido a ela, nem outras doenças intestinais cujos sintomas poderiam se confundir.
Durante os 18 anos de acompanhamento, essas respondiam a questionários sobre a alimentação que eram analisados pelos pesquisadores, bem como os episódios de diverticulite ou sangramento de divertículos dos indivíduos. Durante período do estudo (1986-2004), aconteceram 801 casos de diverticulite e 383 casos de sangramento diverticular.
Eles encontraram associação inversa entre o consumo de oleaginosa e milho e o risco de diverticulite. Além disso, eles compararam também o consumo das pessoas que comiam muito desses alimentos: pessoas que consumiam 2 vezes por semana com as pessoas que comiam pouco, menos de uma vez por mês.
Ainda assim, os pesquisadores não encontraram associação positiva entre o consumo dos alimentos e os desfechos pesquisados (diverticulite ou sangramento dos divertículos). Nesse grande estudo ficou claro que a recomendação de evitar esses alimentos para prevenir crises deve ser reconsiderada. E esse foi um estudo realizado em 2008, já é antigo, hein…
Durante as crises a abordagem é diferente
É importante destacar que as recomendações acima se aplicam principalmente à prevenção e ao manejo da doença diverticular não complicada. Portanto, durante um episódio agudo de diverticulite, as recomendações são diferentes:
- No momento de crise, recomenda-se uma dieta sem fibras, o que inclui a exclusão de sementes
- A reintrodução das fibras e sementes deve ser gradual, à medida que os sintomas melhoram
Conclusão
É tempo de abandonarmos recomendações desatualizadas que não têm respaldo científico e podem privar as pessoas de alimentos nutritivos e potencialmente benéficos. Afinal, a ciência atual é clara: para a maioria dos pacientes com doença diverticular, não há necessidade de evitar sementes, nozes, pipoca ou grãos integrais. Pelo contrário, estes alimentos, como parte de uma dieta balanceada e rica em fibras, podem contribuir para a saúde intestinal e possivelmente reduzir o risco de complicações.
Se você tem doença diverticular e foi orientado a evitar estes alimentos, considere discutir as evidências científicas atuais com seu médico. Uma abordagem nutricional baseada em evidências, personalizada e focada em uma alimentação saudável e completa, é o caminho mais promissor para conviver bem com esta condição tão comum.
Saiba mais sobre o benefício do consumo de fibras na doença diverticular, sobre causas e diagnóstico da doença diverticular e tratamentos disponíveis.
Referências
- Strate LL, Liu YL, Syngal S, Aldoori WH, Giovannucci EL. Nut, corn, and popcorn consumption and the incidence of diverticular disease. JAMA. 2008;300(8):907-914.
- Peery AF, Barrett PR, Park D, et al. A high-fiber diet does not protect against asymptomatic diverticulosis. Gastroenterology. 2012;142(2):266-272.e1.
- Feuerstein JD, Falchuk KR. Diverticulosis and Diverticulitis. Mayo Clin Proc. 2016;91(8):1094-1104.
- Strate LL, Morris AM. Epidemiology, Pathophysiology, and Treatment of Diverticulitis. Gastroenterology. 2019;156(5):1282-1298.e1.
- American Gastroenterological Association. Management of Acute Diverticulitis. Practice Guidelines. Gastroenterology. 2015;149(7):1944-1949.
- Rezapour M, Ali S, Stollman N. Diverticular Disease: An Update on Pathogenesis and Management. Gut Liver. 2018;12(2):125-132.
- Eswaran S, Muir J, Chey WD. Fiber and functional gastrointestinal disorders. Am J Gastroenterol. 2013;108(5):718-727.
- Carabotti M, Annibale B. Treatment of diverticular disease: an update on latest evidence and clinical implications. Drugs Context. 2018;7:212526.


