Nutricionista Adriana Lauffer

Recebi diagnóstico de SII, e agora?

diagnóstico de sii

Receber o diagnóstico de Síndrome do Intestino Irritável (SII) frequentemente desperta uma série de perguntas e preocupações. Você provavelmente se questiona sobre o que está acontecendo em seu corpo, por que os exames não mostram alterações visíveis, e como proceder a partir de agora. Este post aborda essas dúvidas comuns e apresenta informações baseadas em evidências científicas atuais para ajudá-lo a compreender melhor sua condição e as opções de tratamento disponíveis.

O que é um distúrbio “funcional”?

A SII é atualmente classificada como um distúrbio do eixo intestino-cérebro, também conhecido como distúrbio funcional gastrointestinal. Essa mudança na definição reflete nossa compreensão evolutiva da condição, afastando-se da visão antiquada de que seria “apenas psicológica”.

De acordo com os critérios diagnósticos de Roma IV, a SII caracteriza-se por dor abdominal recorrente associada a alterações no hábito intestinal (diarreia, constipação ou padrão misto) por pelo menos três meses, com sintomas presentes nos últimos seis meses. Importante ressaltar que esses sintomas ocorrem na ausência de alterações estruturais ou bioquímicas detectáveis em exames convencionais.

A fisiopatologia da SII envolve múltiplos mecanismos que interagem entre si:

  1. Alterações na motilidade intestinal: contrações intestinais irregulares ou excessivamente fortes, que contribuem para diarreia ou constipação.
  2. Hipersensibilidade visceral: percepção aumentada de sensações intestinais normais como dolorosas ou desconfortáveis, um fenômeno conhecido como alodinia visceral.
  3. Inflamação de baixo grau da mucosa intestinal: estudos mostram aumento de células imunes na mucosa intestinal de pacientes com SII, particularmente após infecções gastrointestinais (SII pós-infecciosa).
  4. Alterações na microbiota intestinal: pacientes com SII frequentemente apresentam disbiose, caracterizada por desequilíbrio na composição das bactérias intestinais, com redução na diversidade de espécies benéficas.
  5. Desregulação do eixo cérebro-intestino: comunicação alterada entre o sistema nervoso central e o sistema nervoso entérico, contribuindo para a hipersensibilidade e alterações na motilidade.

Portanto, ao contrário da percepção incorreta de que “não há nada errado”, existem sim alterações significativas no funcionamento intestinal dos pacientes com SII, mesmo que essas alterações não sejam visíveis em exames de imagem ou endoscópicos convencionais.

O sintoma predominante

A SII é uma condição heterogênea, com diferentes mecanismos fisiopatológicos predominantes em cada paciente. Por isso, a abordagem terapêutica mais eficaz é aquela direcionada ao mecanismo que parece ser o principal responsável pelos sintomas em cada caso:

1. Quando o sintoma predominante é a alteração da motilidade intestinal

Pacientes que apresentam principalmente alterações no ritmo intestinal (diarreia ou constipação) como sintoma predominante podem se beneficiar do uso de medicamentos que regulam a motilidade intestinal.

  • Para SII-D: antidiarreicos como a loperamida para uso ocasional; antagonistas dos receptores 5-HT3 como ondansetrona; ou eluxadolina, que age nos receptores opioides intestinais. Estudos mostram que esses medicamentos reduzem significativamente a frequência de evacuações e melhoram a consistência das fezes em 30-70% dos pacientes.
  • Para SII-C: laxantes osmóticos como polietilenoglicol (PEG); agonistas da guanilato ciclase C como linaclotida; ou agonistas dos receptores 5-HT4 como prucaloprida. Essas medicações aumentam a frequência de evacuações e reduzem a dor abdominal em 40-60% dos pacientes em ensaios clínicos randomizados.

2. Quando o sintoma predominante é a hipersensibilidade visceral

Para pacientes nos quais a dor abdominal é o sintoma mais incapacitante, o tratamento foca em reduzir a hipersensibilidade visceral:

  • Antidepressivos em doses baixas: antidepressivos tricíclicos (como amitriptilina) e inibidores seletivos da recaptação de serotonina modulam a percepção da dor através de seus efeitos no sistema nervoso central e entérico. Uma metanálise recente mostrou que esses medicamentos têm um número necessário para tratar (NNT) de 4,5 para melhora global dos sintomas da SII.
  • Terapias psicológicas: a terapia cognitivo-comportamental (TCC), hipnoterapia direcionada ao intestino e mindfulness apresentam eficácia comprovada na redução da dor e melhora da qualidade de vida. Uma metanálise recente mostrou que a TCC é superior ao tratamento padrão, com tamanho de efeito moderado a grande para redução da dor (SMD = 0,72).

3. Quando o sintoma predominante é a disbiose

Quando existem evidências de alterações na microbiota ou na integridade da mucosa intestinal, as seguintes abordagens podem ser mais eficazes:

  • Probióticos específicos: cepas específicas como Bifidobacterium infantis 35624, Lactobacillus plantarum 299v e misturas probióticas como VSL#3 demonstraram eficácia na redução dos sintomas gerais da SII em meta-análises recentes. O efeito parece ser cepa-específico, com redução média de 21% nos sintomas globais comparado ao placebo.
  • Antibióticos não absorvíveis: 10-70% dos pacientes podem ter SIBO associada. Por isso, a rifaximina, um antibiótico de amplo espectro com absorção mínima, demonstrou eficácia na SII-D, com melhora significativa dos sintomas por até 10 semanas após um curso curto de tratamento. Estudos mostram taxa de resposta de 40-45% comparada a 30-35% do placebo.

A dieta Low FODMAP para SII

Entre as diversas intervenções dietéticas propostas para a SII, a dieta com baixo teor de FODMAPs (Oligossacarídeos, Dissacarídeos, Monossacarídeos e Polióis Fermentáveis) possui o maior nível de evidência científica. Desenvolvida pela Universidade de Monash na Austrália, esta abordagem mostrou eficácia em aproximadamente 70% dos pacientes com SII em estudos controlados.

É importante destacar que os alimentos ricos em FODMAPs e a fermentação que eles causam não são patológicos. O problema é que pessoas com SII costumam perceber mais os desconfortos causados por essa fermentação. Isso ocorre devido à maior sensibilidade visceral ou por apresentarem disbiose, por exemplo.

Abordagens complementares

Além das terapias convencionais, algumas abordagens complementares mostram resultados promissores:

Exercícios físicos regulares

O exercício físico moderado (150 minutos por semana) melhora significativamente os sintomas da SII, independentemente do subtipo. Uma metanálise recente demonstrou que o exercício regular reduz a gravidade dos sintomas em 51% comparado a 23% no grupo controle.

Meditação e técnicas de redução do estresse

Programas estruturados de redução do estresse baseados em mindfulness (MBSR) demonstraram eficácia similar à dieta low FODMAP em alguns estudos. Uma revisão sistemática recente mostrou que essas técnicas reduzem a gravidade dos sintomas em 38,7% comparado com 11,8% nos controles.

Por exemplo, se os sintomas da SII são desencadeados por distúrbios de motilidade, o uso de medicamentos que regulam os movimentos intestinais podem ser necessários. E, o uso de medicamentos, aliado a cuidados específicos com a alimentação e na forma de comer, pode ser ainda mais eficiente

Conclusão

A SII é uma condição complexa e heterogênea que requer uma abordagem personalizada. O fato de alguns tratamentos não funcionarem para você não significa que sua condição não tem solução, mas sim que outros mecanismos podem estar predominando em seu caso específico.

Trabalhe em parceria com seu gastroenterologista para identificar os mecanismos predominantes em seu caso e desenvolver uma estratégia terapêutica personalizada. Combine abordagens farmacológicas e não farmacológicas, considerando:

  1. Seu subtipo de SII (diarreia, constipação ou misto)
  2. Seu sintoma mais incapacitante (dor, distensão, alterações do hábito intestinal)
  3. Fatores desencadeantes identificáveis (alimentos específicos, estresse etc)
  4. Suas preferências pessoais e estilo de vida

Lembre-se de que o tratamento da SII é frequentemente um processo de tentativa e erro, exigindo paciência e persistência. Com a abordagem correta, a maioria dos pacientes consegue atingir um controle adequado dos sintomas e uma boa qualidade de vida.

Interessado em fazer o protocolo Fodmap?

Aqui abaixo você encontra o meu livro sobre o Protocolo Low FODMAP, baseado nas orientações originais da Universidade de Monash, bem como um e-book de Receitas Low FODMAP e uma sugestão de cardápio Low FODMAP para que você consiga fazer o protocolo mantendo uma alimentação equilibrada, adequada em fibras e variada, mesmo sem orientação profissional.

Mas, lembre-se: não é indicado manter a fase de exclusão da dieta de exclusão por mais que 6 semanas e, além disso, o acompanhamento profissional é importante porque parte dos pacientes possuem outras condições clínicas associadas que o protocolo não resolverá por completo e, portanto, necessita de condutas adicionais.

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