Você já deve ter ouvido falar das controvérsias da dieta FODMAP para síndrome do intestino irritável, certo? Como tudo o que é novo, sofre rejeições e críticas, e não foi diferente quando surgiu a dieta FODMAP: houveram controvérsias. Mas, desde a primeira pesquisa mostrando as evidências da eficácia da dieta FODMAP para o manejo da síndrome do intestino irritável (SII), ela tem ganho popularidade.

A preocupação central sobre a segurança da dieta tem sido em relação ao estágio inicial de eliminação dos alimentos ricos em FODMAP, de que essa eliminação poderia comprometer a saúde física e mental do paciente. Uma dessas preocupações, mais especificamente falando, tem sido de que a dieta arruinaria a microbiota intestinal devido à exclusão rígida dos FODMAPs, entre outras.

Estudos controlados têm indicado que a FODMAP não tem efeito negativo na diversidade bacteriana da microbiota, mas irá reduzir sim a abundância bacteriana total, e alta ingestão de FODMAP vai aumentar as bactérias promotoras de saúde.

A questão é que a aplicação da dieta ao longo de uma década, desde que ela surgiu, mudou de uma rígida lista de alimentos “permitidos e proibidos” para um programa/protocolo estruturado de 3 fases, onde a primeira fase é de restrição dos FODMAP’s por 30 dias, seguida da segunda fase, que é de reintrodução e, então, a terceira fase, que é a personalização da alimentação para o paciente. A personalização serve para torná-lo independente para ajustar própria alimentação, dosando alimentos com FODMAPs e suas quantidades, e ao mesmo tempo atingir um bom estágio de ausência de sintomas.

Além disso, com avaliação e orientação cuidadosa, preferencialmente por um nutricionista experiente, o risco de tais consequências negativas na saúde é quase inexistente. Porém, nem sempre as pessoas fazem com acompanhamento adequado. A orientação da dieta FODMAP inclui como orientar o protocolo das 3 fases, e também quando e como aplicar a dieta FODMAP gentil. Tudo isso com o maior bom senso possível para ajudar com que o paciente consiga aplicá-la no dia-a-dia. Inclui também orientação cuidadosa e avaliação da resposta à dieta, bem como diminuir os riscos de muita ou pouca restrição da dieta. A dieta evoluiu em relação há 10 anos atrás. Assim como o entendimento, diagnóstico e o tratamento da SII têm crescido consideravelmente nos últimos 20 anos: de que é uma condição crônica, porém não fatal, o que diminui a sua gravidade.

Idealmente, uma dieta curaria essa condição, mas isso não é possível considerando o entendimento multifatorial da patogênese. A dieta é uma medida de controle de sintomas, e não de cura, deve funcionar a longo prazo, ser capaz de dar conta da flutuação dos sintomas, e ter uma baixa interferência na qualidade de vida do paciente. Das abordagens dietéticas propostas para SII, a evidência de eficácia é amplamente restrita a uma dieta, que é a dieta pobre em oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis, ou seja, a dieta FODMAP, do acrônimo em inglês the fermentable oligosaccharides, disaccharides, monosaccharides, and polyols diet.

O surgimento da dieta FODMAP como tratamento para SII foi um “game changer” para esses pacientes. Estudos de todo o mundo têm mostrado a sua eficácia em relação ao placebo, e 50-87% dos adultos com SII se beneficiam dela. Melhora que não costuma ser atingida com os medicamentos para SII. Na minha prática clínica é de 90%, talvez porque eu consiga fazê-los aderir bem à dieta, tornando o dia-a-dia do paciente o mais simples possível, e talvez por que, de fato, como disse o Peter Gibsen “a aplicação prática da dieta requer boa familiaridade e um pouco de bom senso para uma população heterogênea como são os pacientes com SII”.

Atualmente, no final do protocolo o objetivo é obter um nível mínimo de restrição dos FODMAPs, e não a exclusão total deles, um dos motivos é para evitar a redução de bactérias boas na microbiota. É para isso que serve a fase dos testes e a fase da personalização final da alimentação. Inclusive, por essa e outras razões, surgiu a dieta “FODMAP gentil”, descrita como uma restrição seletiva de alguns alimentos muito concentrados em FODMAPs, que 1) pode resolver determinados casos de pacientes que por algum motivo não devem ou não precisam de restrição total na primeira fase, 2) resolve a questão do excesso de restrição da dieta e 3) e a crítica de que prejudicaria a micriobiota.

Com a popularidade vêm controvérsias e aplicações inapropriadas para a dieta FODMAP, o que também leva a críticas infundadas. Profissionais especializados para guiar os pacientes no seu uso são essenciais para evitar problemas desse tipo, bem como para promover maior aderência aos que realmente se beneficiariam dela.

Fonte das informações: Controversies and reality of the FODMAP diet for patients with irritable bowel syndrome, março 2019.

Fonte da foto: Pinterest.