A vaginite citolítica é uma condição ginecológica caracterizada pela destruição (citolise) das células epiteliais da vagina devido à atividade excessiva de lactobacilos. Os lactobacilos são bactérias benéficas que normalmente residem na vagina e ajudam a manter um ambiente levemente ácido, prevenindo o crescimento de patógenos. No entanto, em algumas mulheres, uma superpopulação dessas bactérias pode levar à citólise das células epiteliais vaginais.
Epidemiologia e prevalência
Embora frequentemente subdiagnosticada, estudos recentes estimam que a vaginite citolítica afeta aproximadamente 2-8% das mulheres que procuram atendimento ginecológico por queixas vaginais. Esta condição é mais comum em mulheres em idade reprodutiva (25-40 anos) e tende a ser recorrente em aproximadamente 30% dos casos. Curiosamente, mulheres com hábitos rigorosos de higiene íntima e aquelas que consomem dietas ricas em carboidratos parecem ter maior predisposição ao desenvolvimento desta condição.
Diferenças entre vaginite citolítica e candidíase
A vaginite citolítica e a candidíase vaginal têm sintomas semelhantes, o que pode levar a confusões no diagnóstico. No entanto, enquanto ambas as condições podem apresentar sintomas como prurido (coceira), ardor e corrimento vaginal, existem algumas diferenças:
Vaginite citolítica:
- Causa: superpopulação de lactobacilos na vagina, que leva à citólise das células epiteliais vaginais.
- Corrimento: geralmente aquoso e claro ou esbranquiçado, com pH extremamente ácido (≤3.5).
- Diagnóstico: observação de células epiteliais citolisadas, numerosos lactobacilos e ausência de leucócitos em um esfregaço vaginal sob microscópio.
- Sintomas característicos: exacerbação no período pré-menstrual e alívio durante a menstruação; sensação de queimação vaginal e vulvar intensa mesmo sem lesões visíveis.
- pH vaginal: extremamente ácido (≤3.5).
Candidíase vaginal:
- Causa: crescimento excessivo do fungo Candida, geralmente Candida albicans.
- Corrimento: espesso, branco e com aspecto de “leite coalhado”.
- Diagnóstico: presença de hifas e esporos de Candida em um esfregaço vaginal sob microscópio.
- Sintomas característicos: não tem relação clara com o ciclo menstrual; prurido intenso é o sintoma predominante.
- pH vaginal: Normal (4.0-4.5).
Ambas as condições podem causar desconforto vaginal semelhante, mas a natureza e a aparência do corrimento podem ajudar a diferenciá-las. Além disso, o diagnóstico correto é crucial, pois o tratamento para cada condição é diferente.
Sintomas detalhados da vaginite citolítica
Os sintomas da vaginite citolítica incluem:
- Prurido vulvovaginal: geralmente moderado a intenso, que pode piorar após relações sexuais.
- Sensação de queimação: particularmente durante a micção ou após o contato com água.
- Dispareunia: dor durante as relações sexuais, frequentemente relatada como sensação de “ardor” ou “ferida”.
- Corrimento vaginal: tipicamente aquoso a branco-acinzentado, sem odor característico.
- Exacerbação pré-menstrual: os sintomas frequentemente pioram na semana anterior à menstruação e melhoram significativamente durante o fluxo menstrual (devido à neutralização do pH pelo sangue menstrual).
- Desconforto após consumo de alimentos ricos em açúcares: algumas pacientes relatam piora dos sintomas após ingestão de carboidratos refinados.
- Ausência de alívio com antifúngicos: histórico de uso de tratamentos para candidíase sem melhora ou com alívio apenas temporário.
Diagnóstico da vaginite citolítica
O diagnóstico correto da vaginite citolítica é fundamental para evitar tratamentos inadequados. Os critérios diagnósticos incluem:
- Exame microscópico a fresco: Revela grande número de lactobacilos (>30 por campo de grande aumento), células epiteliais citolisadas (com núcleos “nus” visíveis) e ausência significativa de leucócitos.
- Medição do pH vaginal: Valores extremamente ácidos, geralmente abaixo de 3.5.
- Cultura negativa para patógenos: Incluindo Candida e bactérias causadoras de vaginose.
- Teste de KOH: Negativo para hifas e esporos fúngicos.
Estudos mostram que até 30% das mulheres previamente diagnosticadas com candidíase recorrente refratária ao tratamento podem, na verdade, ter vaginite citolítica, reforçando a importância do diagnóstico laboratorial adequado.
Tratamento da vaginite citolítica
O tratamento da vaginite citolítica visa reduzir o número excessivo de lactobacilos na vagina, que é a causa da citolise das células epiteliais vaginais, e o ambiente extremamente ácido. Aqui estão algumas abordagens comuns para o tratamento baseadas em evidências científicas:
Banhos de assento com soluções de bicarbonato de sódio
- Bicarbonato de sódio: 30-40g de bicarbonato de sódio diluído em 1-2 litros de água morna para banhos de assento ou lavagem externa por 15 minutos, 2-3 vezes por semana durante 2-3 semanas.
- A eficácia dessa abordagem foi demonstrada em estudos clínicos, com taxas de melhora de 80-90% após um ciclo completo de tratamento.
Supositórios vaginais alcalinizantes
- Formulações contendo bicarbonato de sódio ou hidróxido de magnésio podem ser prescritas para uso intravaginal.
- Frequência recomendada: 1-2 vezes por semana durante 2-3 semanas, preferencialmente antes de dormir.
Modificações na dieta
- Redução da ingestão de carboidratos refinados e açúcares, que servem como substrato para alguns lactobacilos.
- Alguns estudos observacionais sugerem melhora dos sintomas com dietas de baixo índice glicêmico.
Ajustes na higiene íntima
- Evitar sabonetes ácidos e optar por produtos com pH neutro.
- Reduzir a frequência de lavagens internas e nunca usar duchas vaginais sem orientação médica específica.
- Preferir roupas íntimas de algodão e evitar calças justas por períodos prolongados.
Manejo durante períodos de exacerbação
- Intensificar os banhos de assento com bicarbonato no período pré-menstrual.
- Em casos graves, pode-se considerar o uso de anti-inflamatórios tópicos sob orientação médica.
É importante ressaltar que as duchas vaginais alcalinas internas só devem ser realizadas sob estrita orientação médica e em casos selecionados, pois seu uso inadequado pode levar a outros desequilíbrios na microbiota vaginal, incluindo vaginose bacteriana. O uso prolongado de soluções alcalinas também não é recomendado, pois pode resultar em um ambiente excessivamente alcalino, favorecendo infecções oportunistas.
É importante lembrar que, devido à semelhança dos sintomas entre a vaginite citolítica e outras condições vaginais, como a candidíase vaginal, é crucial obter um diagnóstico preciso de um médico ou ginecologista antes de iniciar qualquer tratamento. Afinal, enquanto a vaginite citolítica trata reduzindo o número de lactobacilos na vagina, a candidíase vaginal é tratada com antifúngicos e necessita aumentar a quantidade de lactobacilos.
Conclusão
A vaginite citolítica representa um desafio diagnóstico devido à sua semelhança com a candidíase vaginal. O reconhecimento adequado desta condição e a diferenciação de outras causas de vulvovaginite são essenciais para um tratamento eficaz e para evitar o uso desnecessário de antimicrobianos.
O manejo bem-sucedido da vaginite citolítica requer uma abordagem multifacetada, incluindo modificações no estilo de vida, ajustes na higiene pessoal e intervenções terapêuticas específicas. O acompanhamento regular e a educação da paciente sobre os fatores desencadeantes são componentes críticos para o controle a longo prazo desta condição.
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Referências
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