Já estive falando em outro post “Quando a dieta Fodmap não funciona” que em torno de 20% dos pacientes a dieta Fodmap pode não ser tão efetiva quanto se esperava, e que isso se devia basicamente 3 motivos, em que um deles seria a possibilidade de alergia alimentar.

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Mas, num estudo publicado na Revista Gastroenterology em 2019 concluiu que esse número pode ser bem maior: em torno de 50%! E mesmo naqueles pacientes com testes de alergia negativos. Isso mesmo, leia essa frase última de novo: em torno de 50% dos pacientes com SII podem ter alergia alimentar não clássica, e mesmo com testes de alergia clássica negativos.

Nesse estudo, os pesquisadores selecionaram pacientes com SII e com testes negativos para alergia alimentar, inclusive os testes cutâneos de alergia.

Testes cutâneos de alergia, ou testes de alergia no antebraço ou Teste de Prick, são aqueles testes em que são aplicadas no antebraço da pessoa algumas gotas da substância que se pensa causar alergia, ou faz-se algumas picadas, com uma agulha com a substância, e aguarda-se 20 minutos para verificar se o paciente faz reação.

Os pacientes eram submetidos a uma endoscopia juntamente com um método chamado endomiscroscopia confocal a laser, que é uma modalidade de imagem endoscópica avançada que fornece imagens semelhantes à histologia com aumento de 1000 vezes para avaliação por microscopia in vivo, e que já existe há 10 anos.

Durante a endoscopia, através de um cateter, eram administradas amostras líquidas de 20 ml de soluções, uma contendo trigo, outra leite, soja, fermento ou ovo, e uma solução controle. Juntamente com a endomicroscopia confocal a laser, os pesquisadores conseguiam acompanhar e ver as reações celulares acontecendo no paciente, in vivo.

O que eles viram:

– que pelo menos 50% dos pacientes podem ter alergia alimentar não clássica. A clássica é aquela mediada por IgE, e cujos os exames costumam dar sempre negativos, sejam os exames de sangue ou os testes cutâneos;

– que os sintomas eram tardios, apesar de as reações na mucosa duodenal serem imediatas. A alergia tardia apresenta sintomas tardios (e não imediato ao consumo) e, por isso, leva esse nome;

– as principais reações vistas pelos pesquisadores quando as amostras de alimentos entravam em contato com a mucosa eram aumento imediato de permeabilidade intestinal (principal via para o desenvolvimento de alergias alimentares) e infiltração de eosinófilos (principal categoria de células sinalizadoras de reação alérgica);

– que a alergia não clássica, não mediada por IgE, é uma mistura de diferentes processos fisiopatológicos, com variações em secreção entérica, permeabilidade, motilidade, e sensações. Varia de pessoa para pessoa e, por isso, a detecção e tratamento são complicados.

Segundo esse estudo podemos ver que existem muitos mecanismos envolvidos na SII, e que em algumas pessoas não só os princípios de fermentação ou intolerância à histamina podem estar presentes, mas também os mecanismos de alergia alimentar.

Na Gastrenterologia, em pacientes com SII, com maior sensibilidade visceral, refratários à tratamentos, é preciso ter muita calma, muita paciência e, muitas vezes, ir por partes e ajustando a conduta de tratamento. É preciso ter cautela e bom senso para identificar também quando questões emocionais influenciam, através da somatização ou neurotização, (falo isso como estudante de psicologia) e não só culpabilizar alimentos. Mas, se você não melhorou com as condutas que fez até agora, a possibilidade de alergia alimentar tardia é uma delas.

Tenha paciência consigo mesmo, com seu intestino e com o seu tratamento. A recuperação é gradual e pode ser lenta, o tratamento pode ser difícil e vezes precisar de ajustes, mas é totalmente possível.

Leia na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31100380/

Fonte: Many Patients With Irritable Bowel Syndrome Have Atypical Food Allergies Not Associated With Immunoglobulin E, 2019.