O que fazer quando a criança não quer comer?

EM CASA, COM OS PAIS

A criança, mesmo quando pequena, é capaz de perceber a tensão que gera no adulto quando recusa a alimentação que lhe é oferecida. Toda criança quer carinho, beijos, quer atrair a atenção, sentir-se importante e despertar o interesse da família e, para isso, muitas vezes, usa a alimentação como meio efetivo de ganhar atenção.
A criança percebe o que consegue do adulto quando não come e, por isso, provavelmente repetirá com freqüência este comportamento. A confirmação desta situação se dá quando ela come melhor fora de casa, não apresentando problemas para alimentar-se na instituição, na casa de amiguinhos ou em festas.
A hora da alimentação pode virar uma festa ou um autêntico campo de guerra, um momento de luta pelo poder que enerva tanto a criança quanto o adulto. A alimentação é uma poderosa arma com a qual os filhos dominam os pais.
Em certa fase, existe uma grande necessidade de exploração do alimento que, para quem oferece, pode ser sinônimo de bagunça ou sujeira. Por volta de um ano de idade, os pequenos têm vontade de pegar, cheirar, olhar e sentir os alimentos, o que além de proporcionar prazer à criança, auxilia o seu desenvolvimento.
As crianças necessitam alcançar autonomia sobre as suas ações, manifestada pela vontade de comer sozinho. Nessa fase é importante incentivar, ajudar, mantendo a paciência e propiciando uma interação mais satisfatória com a criança na hora das refeições.
Muitas vezes quando a criança não aceita bem uma refeição pode vir a descontar seu apetite na próxima. É necessário evitar compensar uma alimentação completa e balanceada (geralmente o almoço e jantar) por “beliscos” nos intervalos das refeições. Promessas de recompensas em troca de uma boa aceitação alimentar são atitudes que devem ser evitadas. É importante mostrar à criança o que ela tem a ganhar com uma alimentação equilibrada.
Quando a idade permite, deve-se ouvir a criança e perceber melhor o que ela já consegue expressar sozinha. Por que os laços de obediência e de dependência do mundo adulto têm que estar sempre presentes? Por que não aceitar os limites da criança, quando ela decide que está satisfeita e não quer mais comer? Por que os pais têm sempre razão e só eles são capazes de julgar o que é melhor para a criança? Reconhecemos, no entanto, que este momento é especialmente difícil, uma vez que mexe com emoções e gera insegurança.

NA ESCOLA

Muitos problemas alimentares são exacerbados pela incapacidade das famílias em lidar com as situações, sem uma ajuda profissional, e por aspectos ambientais.
Após o primeiro e até os três anos de idade da criança é comum a redução do apetite, pois além de selecionar mais os alimentos que deseja comer, demonstrando que sua personalidade está em pleno desenvolvimento, a necessidade de consumo de energia por quilo de peso vai diminuindo à medida que a criança cresce, até o próximo estirão de crescimento. Também observamos o fato de as crianças demonstrarem uma grande atração pelas novidades que as cercam, assim os alimentos passam a não ter muita importância, diante de tantas descobertas, a não ser que sejam apresentados de forma prazerosa e atrativa, com sabores, formas e cores variadas.
A prática comprova que quanto mais cedo a criança ingressa na escola, mais facilmente ela amplia suas preferências alimentares. É normal que a criança necessite de certo tempo para adaptar seu paladar ao novo tempero e às preparações oferecidas pela escola. O próprio ambiente e a presença de pessoas desconhecidas também podem influenciar na aceitação imediata das refeições.
O princípio fundamental para preservar o apetite requer que todos ajam com menos ansiedade e aprendam a entender melhor a criança.
Porém, é bom alertar que, em longo prazo, os problemas e as conseqüências da perda de apetite podem causar redução do peso, desnutrição ou carência alimentar, anemia, retardo do crescimento, letargia, alterações cognitivas e emocionais, deficiência imunológica e menor rendimento no aprendizado.
Cabe lembrar que o tratamento com uso de estimulantes de apetite costuma funcionar por um período inicial relativamente curto, proporcionando às famílias uma tranqüilidade temporária e ilusória, pois o organismo acaba de adaptando ao medicamento. Crianças potencialmente pequenas, que por herança genética tenham pais pequenos, não crescerão além da sua capacidade se comerem em excesso.
É conveniente que os pais sempre lembrem da importância de não enviar guloseimas nas mochilas dos filhos, de sempre refletir antes de optar por alimentos desse tipo, a fim de estimular hábitos alimentares saudáveis.
As crianças não devem sentir-se diferentes ao estarem recebendo uma dieta variada e equilibrada.

DICAS ADICIONAIS:

O livro intitulado “A Criança Que Não Come” trouxe uma grande contribuição possibilitando a elaboração de sugestões que favorecem a aceitação dos alimentos e proporcionam momentos prazerosos na hora das refeições. É uma estratégia que alia cuidado e educação com grandes chances de obter sucesso.

– A introdução precoce de alimentos salgados na dieta do bebê pode causar futuras rejeições;
– Capriche no visual dos alimentos e no sabor das preparações.
– Evite a monotonia alimentar variando o tipo de preparação e alimentos.
– O horário das refeições deve seguir certa regularidade, um ritmo alimentar que permita a flexibilidade eventual, porém, com disciplina e bom senso.
– É importante a criança habituar-se a uma rotina alimentar, sem pular as refeições.
– A ingestão de líquidos deve ser evitada na véspera das refeições, pois diminui o apetite e prejudica a digestão.
– Não incentive a criança a comer à custa de insistência, agrados e distrações.
– A dieta da criança deve ser adaptada à refeição da família. É importante que ela perceba e observe que todos estão comendo a mesma comida, pois os adultos costumam ser o exemplo para a criança, que costuma imitá-los.
– Os familiares devem estabelecer sempre o diálogo com a criança evitando que ela se sinta o centro das atenções, podendo manipulá-los através de “chantagens”.
– Expressões faciais são percebidas pelas crianças e podem refletir satisfação ou aversão aos alimentos, por isso, evite expressões de aversão ou comentários negativos sobre determinado alimento na presença da criança ou no momento da refeição.
– As alterações de apetite decorrentes das variações climáticas, principalmente durante o verão, devem ser levadas em consideração, assim como as reações adversas provocadas pela ingestão de medicamentos.
– Verificar se a criança pode estar com algum processo patológico: refluxo gastroesofágico, “sapinho” na boca, aftas, verminoses, gengivite, febre, dores de garganta, ouvido, também se deve observar freqüência e consistência das evacuações. Esses fatores influenciam o apetite.
– Discussões na hora das refeições devem ser evitadas, pois o horário da alimentação precisa ser um momento de prazer e o ambiente tranqüilo, limpo e “gostoso”.