Dieta FODMAP para Síndrome do Intestino Irritável

A síndrome do intestino irritável (SII) até pouco tempo atrás era considerada um distúrbio funcional, ou seja, sem causa orgânica identificável. Esse cenário está mudando, visto que estudos científicos (inclusive o meu de doutorado, que executei na Bélgica) têm identificado algumas alterações na mucosa intestinal, como permeabilidade aumentada. A SII não causa maiores danos à saúde, como a retocolite ulcerativa e doença de Crohn, mas pode prejudicar muito a qualidade de vida dos pacientes devido aos sintomas, que são dor abdominal, distensão abdominal, flatulência, que melhoram com a evacuação, alteração da evacuação e/ou alternância do formato das fezes, e muitas vezes ainda há presença de dispepsia (má digestão) e disbiose (alteração da microbiota intestinal). Atualmente, a dieta de eliminação FODMAP tem sido considerada a principal conduta dietoterápica para pacientes com SII a fim de reduzir os sintomas.

FODMAP é um termo acrônimo, em inglês, para “Fermentable​​ Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides and Polyols”, ou seja, oligossacarídeos (frutanos e galactanos), dissacarídeos (lactose), monossacarídeos (frutose) e polióis fermentavéis. A dieta FODMAP foi desenvolvida na Universidade de Monash, em Melbourne por Peter Gibson e Susan Shepherd em 2010.

Ou seja, a pessoa tem que evitar algumas frutas, vegetais, cereais, oleaginosas, leguminosas, e lácteos com lactose por serem fonte de alguns tipos de carboidratos que fermentam, que são frutose, lactose, oligossacarídeo e poliol.

A má absorção da maioria dos carboidratos acima (FODMAP’s) é comum a todos. A maioria das pessoas não sofrem sintomas significativos, mas os pacientes com SII podem ter muito desconforto. A redução dos FODMAPs da dieta resultou em efeito benéfico para os pacientes com SII e outros distúrbios gastrointestinais funcionais.

Quando o intestino delgado é incapaz de absorver frutose e sucrose, ela é transportada para o intestino grosso onde é fermentada pela microbiota local. Durante a fermentação, hidrogênio, dióxido de carbono, ácidos graxos de cadeia curta, e outros gases são produzidos, que acredita-se serem capazes de levar aos sintomas de inchaço. Essa má absorção também exerce um efeito osmótico causando um aumento da reabsorção de água a partir da mucosa intestinal para o lúmen. Este aumento da água acelera a motilidade do intestino, podendo causar diarreia. Veja o vídeo da universidade explicando esses mecanismos de fermentação: https://www.youtube.com/watch?v=Z_1Hzl9o5ic

Recomenda-se manter a dieta isenta de FODMAPs por 4-6 semanas e, depois reavaliar os sintomas para então reintroduzir os alimentos de forma gradual e supervisionada pelo nutricionista para determinar o nível de tolerância, através de um protocolo de testes de desafio.  Os testes de desafio são através dos grupos de carboidrato. A boa notícia é que você provavelmente poderá voltar a comer alguns alimentos naturalmente ou esporadicamente, você não estará privado deles para o resto da sua vida. Mas, talvez alguns você tenha que evitar mesmo.

Outras considerações importantes:

Alimentos ricos em aminas biogênicas, tais como vinho e cerveja, salame e queijo e alimentos liberadores de histamina, como leite, vinho, cerveja e carne suína são considerados causadores de sintomas. Além disso, 52% dos indivíduos referiram ter sintomas após consumir alimentos fritos e gordurosos.

Pacientes com SII normalmente possuem algum quadro psiquiátrico, como depressão ou níveis altos de ansiedade. É comum, como qualquer pessoa ansiosa, acabar exagerando na alimentação (“descontando na comida”, como se costuma dizer), o que também pode levar a todos os sintomas da SII citados anteriormente. Uma pessoa “normal” quando exagera em uma refeição pode depois ter algum episódio de diarreia, flatulência, distensão e dor abdominal. Algo que tenho observado muito nos pacientes com SII é que muitos já se submetem a dietas restritivas, com ou sem orientação nutricional ou médica. Sabe-se que restrição gera compulsão. Em algum momento, seja pela sensação de restrição alimentar ou ansiedade, esses pacientes acabam exagerando nas porções dos alimentos e sentindo-se muito mal depois. Fique atento ao seu comportamento alimentar: momentos de exagero, o que leva ao exagero, má mastigação, comer com pressa, etc. Parte dos seus sintomas podem ser consequência também da forma como se alimenta e da sua relação com a comida. Eu, como nutricionista com formação em gastroenterologia e em comportamento alimentar, te asseguro que isso é muito importante.

Outras indicações para a dieta FODMAP:

Doença celíaca, doença inflamatória intestinal, depressão, fibromialgia, distúrbios funcionais/isolados que não se encaixam completamente no quadro diagnóstico de SII: como dor abdominal, distensão, inchaço, constipação/diarreia.

Sugestões de livros, apps e sites:

  • Low-fodmap diet. 28 day-plan
  • The complete low-fodmap diet
  • Site da Universidade de Monash: http://www.med.monash.edu/cecs/gastro/fodmap/
  • Aplicativo: Monash University Low FODMAP Diet 7,99 dólares (existem outros apps sem custo).

Nutrição e Gastroenterologia: uma união muito importante!