Dieta e doença hepática gordurosa não alcoólica – Esteatose hepática/fígado gordo

A doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), ou mais conhecida como esteatose ou fígado gordo, é uma das formas mais comuns de doença hepática e está relacionada principalmente com o aumento progressivo dos índices de obesidade em todo o mundo. Inicialmente, foi considerada uma hepatopatia de curso benigno, mas hoje se sabe que é uma doença complexa que envolve fatores ambientais e predisposição genética e pode levar a estágios mais sérios.

A esteatose pode se apresentar com espectro de alterações hepáticas que variam desde uma simples deposição de gordura no interior do hepatócito, sem inflamação ou fibrose (esteatose simples), até casos de esteato-hepatite não alcoólica (NASH), cirrose e carcinoma hepatocelular  em pacientes sem história de etilismo.

Em virtude das crescentes taxas de obesidade, a esteatose tem se tornado cada vez mais frequente em todas as populações, principalmente no mundo ocidental, e tem sido definida pelos especialistas como uma doença do mundo moderno. Já foi comprovada a eficácia da combinação de dieta e atividade física em termos de promoção de perda de peso.

Indivíduos jovens do sexo masculino apresentam maior risco (duas a três vezes) de desenvolver esteatose e NASH; porém, após os 60 anos de idade, a probabilidade de desenvolver NASH é maior no sexo feminino.

A esteatose está associada principalmente à síndrome metabólica (SM), diabetes melito tipo 2 (DM-2), resistência à insulina, obesidade abdominal (visceral) – a principal causa, e dislipidemia (triglicerídeos alto, HDL baixo e níveis elevados LDL). Além disso, também pode estar associada a procedimentos cirúrgicos como by-pass jejunoileal, desnutrição, nutrição parenteral prolongada – comum em pacientes hospitalizados, doenças endócrinas, uso de medicamentos e exposição a toxinas.

Sobre alimentação e dietas, ainda não existe um consenso sobre qual a conduta dietoterápica a ser adotada para esteatose, mas a terapia nutricional na deve considerar a etiologia da doença e, em condições ideais, deve ter como objetivos promover redução de peso, redução de gordura intra-hepática, melhor controle metabólico, com redução dos níveis glicemia e melhora da resposta à insulina, bem como do perfil lipídico (CT, LDL, TG, HDL) e do estado inflamatório.

As principais estratégias dietoterápicas para combater a esteatose serão apresentadas a seguir

1.A redução de peso pode se dar por diminuição do valor calórico da dieta e exercício físico. No entanto, a perda de peso muito rápida tem sido associada a diminuição da esteatose hepática, mas com piora nos parâmetros de inflamação e fibrose.

2. Além de cuidar para não exceder a quantidade diária de carboidratos, é importante cuidar o índice glicêmico (IG) deles. Dietas com alta oferta de carboidratos de alto índice glicêmico promoveu elevação duas vezes maior nos níveis de TG e adiposidade do que dieta com a mesma quantidade de carboidratos mas de absorção lenta (baixo IG). Por isso é tão importante comer carboidratos de forma adequada e optar por carboidratos saudáveis.

3.Também é importante fazer uma dieta rica em fibras. As recomendações variam conforme as entidades da saúde (ADA, OMS, DRI), mas em média aconselha-se consumir em torno de 30g de fibra ao dia, ou 14g de fibra a cada 1000 Kcal. Para alcance das recomendações de fibras é necessário fazer uma ingestão regular e diária de frutas, cereais integrais, verduras, legumes e leguminosas. Consumir 14g de fibra não é difícil: basta incluir no cardápio diário os seguintes alimentos: 1 fatia de mamão (150g), 1 laranja (100g), 1 fatia de pão de centeio (25g), 1 colher de sopa de aveia em flocos (15g), 2 colheres de sopa de arroz integral (40g), 1 concha pequena de feijão (70g) e 2 colheres de sopa de legumes (40g), como vagem ou beterraba.

4.Sobre o consumo de gorduras, não há referências específicas para a ingestão na esteatose, mas podem-se adotar as recomendações para síndrome metabólica, já que os pacientes com esteatose, especialmente aqueles com esteato-hepatite, apresentam risco aumentado de desenvolver esse conjunto de anormalidades metabólicas. Nesse caso, fica indicada a dieta mediterrânea, que preconiza o consumo de azeite de oliva, oleaginosas e carnes brancas e magras. Estudos mostram que após a realização da intervenção com a dieta estilo mediterrâneo, os pacientes apresentaram significativa redução da esteatose hepática e melhora da sensibilidade à insulina.

5.Pacientes com NASH apresentam menores níveis de antioxidantes no soro, que tornam o fígado mais susceptível ao dano oxidativo, por isso, a utilização da vitamina E como antioxidante pode retardar a progressão da esteatose para NASH.

6.Os probióticos, tais como coquetel composto por Streptococcus thermophilus  e várias espécies de lactobacilos e bifidobactérias, têm sido utilizados para prevenir e tratar condições inflamatórias do trato gastrintestinal. Esses efeitos terapêuticos podem ser relacionados com uma variedade de mecanismos diretos e indiretos, incluindo a modificação de microbiota local, a função de barreira epitelial, inflamação intestinal, estresse oxidativo, ou o sistema imunitário.

7.Produtos naturais, incluindo gengibre, extrato de chá-verde, café, extrato de folhas e ervas chinesas têm sido propostos para prevenir ou atenuar a EHNA e sua progressão por meio de vários mecanismos, tais como melhora da sensibilidade à insulina, ativação de receptores gama ativados por proliferador de peroxissomos (PPAR-gama), indução de adiponectinas e regulação de citocinas pró-inflamatórias, mudando o equilíbrio entre a adiponectina e fator de necrose tumoral alfa (TNF- alfa) em favor da adiponectina, efeitos antioxidantes e propriedades antidislipidêmicas.