Como se alimentar no pós operatório da cirurgia bariátrica?

A mudança do hábito alimentar começa a ser incorporada no período de pré-operatório. Através de alterações simples e práticas o paciente gradativamente conscientiza-se e prepara-se para as mudanças que seus hábitos alimentares irão sofrer. O objetivo principal é treinar o paciente a comer devagar, mastigando bem os alimentos, com “garfadas” pequenas e espaçadas e estar motivado a uma escolha com qualidade.
Este processo facilitará o pós-operatório, evitando desconfortos e favorecendo a perda de peso saudável, principalmente a massa gorda. O acompanhamento nutricional inicia-se no período pré-operatório e deverá ser regular durante todo o período de perda de peso. Após estabilização, o paciente deverá retornar a cada seis meses.

1º Mês Pós-Cirurgia
O objetivo da dieta neste período não é a perda de peso, mas sim auxiliar no processo de cicatrização do estômago. Pode-se dividir o cuidado com a alimentação em cinco fases após a cirurgia:

Fase da alimentação líquida – objetivo: adaptação aos pequenos volumes, hidratação e repouso gástrico (primeiras 2 semanas):

Os primeiros dias de alimentação pós cirúrgica são específicos e devem ser seguidos para evitar complicações. A alimentação é liquida e constituída de pequenos volumes (em torno de 50 mL por refeição).

Como conseqüência da alimentação liquida, a perda de peso é bastante grande nestas duas semanas, devendo-se introduzir o uso de complementos nutricionais específicos para evitar carências de vitaminas e de minerais. A orientação nutricional deverá ser iniciada pelo médico e nutricionista já no hospital, antes da alta hospitalar.

Primeira semana

  • DIETA: líquida restrita (sem lactose, sem sacarose)
  • ALIMENTOS: líquidos (água, chá, água de coco, bebida isotônica, gelatina diet)
  • VOLUME: 50ml a cada 20-30 minutos, enquanto estiver acordado.

No quarto dia normalmente alta-hospitalar.

Segunda semana

  • DIETA: líquida completa
  • ALIMENTOS: sopas/caldos liquidificados e coados em peneira fina (com caldo da carne evitando acrescentar no caldo os amidos, como: arroz, batata, macarrão, mandioca, mandioquinha, cará, inhame), leite desnatado, iogurte natural desnatado sem pedaços, mingau ralo, gelatina diet, água de coco, bebida isotônica, sucos coados e diluídos.
  • VOLUME: 50 ml de 30 em 30 minutos, enquanto estiver acordado.
  • Suplemento de proteína: albumina (é mais barato, mas alguns pacientes não toleram bem) ou caseinato de cálcio. Indica-se 2 col. de chá 3x/dia.

Prefira preparar os caldos em casa, ao invés de comprar sopas prontas industrializadas, bem como os sucos em pó. Dilua sempre os sucos industrializados líquidos, evitando aqueles com corantes e conservantes. Tempere os caldos habitualmente, mas não esqueça de coar. O leite e o iogurte também devem ser coados quando estiverem batidos com frutas. Não consuma líquidos calóricos como: milk-shakes, leite condensado, creme de leite, sorvetes, flans, pudins, chocolates, etc…), pois são ricos em açúcar e podem causar: diarréia, tontura, fraqueza, sudorese, palpitações, taquicardia, rubor, dispnéia, sonolência, desmaios, náuseas, vômitos e dores abdominais (síndrome de Dumping). Não consumir bebidas alcoólicas.

Os líquidos/alimentos deverão ser tomados lentamente, demorando cerca de 40 minutos para ser ingerido.

A atenção especial nessa fase é a forma de ingestão dos alimentos, volume alimentar ingerido, fracionamento e preparo dos alimentos. Atenção na forma de ingestão dos alimentos – principalmente VELOCIDADE – e na hidratação, através da coloração da urina (urina escura pode ser sinal inicial da desidratação).

Fase da evolução de consistência (em média durante 2 semanas):

De acordo com a tolerância e as necessidades individuais, a alimentação vai evoluindo de líquida para pastosa com a introdução de preparações liquidificadas, cremes e papinhas ralas. A evolução de cada paciente é variável de forma que a escolha de cada alimento deve ser acompanhada cuidadosamente para evitar desconforto digestivo como dor, náuseas e vômitos, esta fase tem um tempo de duração diferente para cada indivíduo, porém, em média, dura em torno de 2 semanas.

Terceira semana

  • DIETA: semilíquida
  • ALIMENTOS: alimentos com a mesma preparação da semana anterior, porém liquidificados,  não havendo mais necessidade de coar. Também pode ser utilizado papa infantil industrializada (doces ou salgadas). Leite desnatado, iogurte natural desnatado sem pedaços, mingau ralo, gelatina diet, água de coco, bebida isotônica, sucos diluídos com água.
  • VOLUME: 50 ml a cada 20-30 minutos, enquanto estiver acordado
  • Suplemento de proteína

Quarta semana

  • DIETA: transição de consistência semilíquida para pastosa
  • ALIMENTOS: alimentos bem amassados e cozidos, na forma de purê e suflê (canja de galinha e cremes de legumes), caldo de feijão, sopa de legumes com carne liquidificada e coada. Leite integral, iogurte natural integral sem pedaços, batida de fruta, mingau, gelatina diet, água de coco, bebida isotônica, sucos não mais diluídos.
  • VOLUME: De 100g a 150g, de acordo com a tolerância do paciente (tolerância varia conforme a técnica cirúrgica também).
  • FRACIONAMENTO: 8 a 9 refeições ao dia
  • CUIDADO: Risco de ingerir uma dieta mais calórica.
  • Manter hidratação com água nos intervalos, beber aos goles.
  • Começar aplicação dos conceitos da reeducação nutricional.
  • Suplemento de proteína.
  • Manter hidratação entre as refeições.

2º Mês Pós-Cirurgia

Fase da seleção qualitativa e mastigação exaustiva (em média durante 30 dias):

Passado o primeiro mês após a cirurgia, inicia-se uma fase onde a seleção dos alimentos é de fundamental importância, pois, considerando que as quantidades ingeridas diariamente continuam muito pequenas, deve-se dar preferência aos alimentos mais nutritivos escolhendo fontes diárias de ferro, cálcio e vitaminas. O paciente deverá receber um treinamento para reconhecer quais são os alimentos mais ricos neste nutrientes de forma a ficar mais independente para escolher as principais fontes de minerais e vitaminas encontradas nas suas refeições diárias. Como a alimentação passa a ser mais consistente deve-se mastigar exaustivamente.

Quinta à oitava semana:

  • DIETA: pastosa
  • ALIMENTOS: essa fase é constituída de purês, pastas ou cremes, suflê, feijão, carne triturada ou moída ou desfiada, ovo cozido, legumes ralados e sem casca. Leite integral, iogurte natural integral sem pedaços de frutas, mingau ralo, gelatina diet, água de coco, bebida isotônica, sucos não mais diluídos com água.
  • FRACIONAMENTO: 6 a 8 refeições ao dia, com pequenos volumes (100 a 180g)
  • Recomendações: atenção na MASTIGAÇÃO, velocidade da ingestão dos alimentos e consistência.
  • Suplemento de proteína.
  • Manter hidratação entre as refeições.

3º Mês Pós-Cirurgia

Fase da otimização da dieta (em média durante 30 dias):

Nesta fase a alimentação vai evoluindo gradativamente para uma consistência cada vez mais próxima do ideal para uma nutrição satisfatória. Geralmente, esta fase ocorre a partir do 3º mês após a cirurgia quando quase todos os alimentos começam a ser introduzidos na alimentação diária. O cuidado com a escolha dos alimentos nutritivos deve continuar, pois as quantidades ingeridas diariamente continuam pequenas. Nesta fase o paciente pode ser capaz de selecionar os alimentos que lhe tragam mais conforto, satisfação e qualidade nutricional. Somente não são tolerados alimentos muito fibrosos e consistentes.

Dieta deverá ser normal, mantendo apenas o controle de volume e balanceamento nutricional. As restrições alimentares serão em relação ao consumo de bagaços, sementes, cascas duras especialmente de verduras e legumes, alimentos como carnes duras, empanados e frituras. Introduzir aos poucos os vegetais crus, sob forma de salada.
Em geral deve-se procurar manter:

  • Plano alimentar com seis refeições fracionadas ao dia, pequenos volumes e freqüentes.
  • Mastigar muito bem os alimentos, alimentando-se ambiente tranquilo e sem pressa.
  • Ingerir líquidos somente entre as refeições, nunca durante, preferindo água ou água de coco.
  • Não consumir doces e refrigerante
  • Procurar equilibrar a dieta ao longo do dia.
  • Parar de comer assim que sentir-se satisfeito.
  • Começar comendo os alimentos fontes de proteínas.
  • Plano alimentar individualizado, baseado em reeducação alimentar.
  • 1200 a 1600 Kcal com 1g de proteína por Kg.

4º Mês Pós-Cirurgia em diante: fase da adaptação final e independência alimentar

Como nas fases anteriores, também evolui de acordo com as características individuais podendo iniciar-se um pouco antes ou um pouco depois do 4º mês. A partir desta fase, um acompanhamento periódico faz-se necessário somente para o acompanhamento da evolução de peso e levantamento de informações para identificar se existem carências nutricionais como, por exemplo, a anemia. O paciente já tem bastante segurança na escolha dos alimentos e está apto a compreender quais são os alimentos ricos em proteínas, glicídios e lipídios, cálcio, ferro, vitamina A, vitamina C, folatos além de outras propriedades nutricionais.

ALGUNS ASPECTOS IMPORTANTES

O CONSUMO DE LÍQUIDOS. A rápida perda de peso leva a uma aumento transitório dos níveis de ácido úrico na circulação. Quando a hidratação não é suficiente poderá haver formação de litíase renal (pedra nos rins). Por este motivo o consumo de líquidos deve ser monitorado para evitar que a urina fique muito concentrada. O consumo de líquidos deve ser constante, independente da sede.

 

A ESCOLHA DE ALIMENTOS RICOS EM FERRO. Dentre os alimentos mais fibrosos e de aceitação mais tardia está a carne vermelha. Enquanto ela não for introduzida na alimentação, o nutricionista deverá orientar o paciente sobre outras fontes de ferro presentes na alimentação. O consumo de alimentos riscos em ferro deve ser constante, principalmente se não for possível consumir carne vermelha.

 

A INTOLERÂNCIA AO AÇÚCAR. O consumo de alimentos açucarados deve ser evitado por dois motivos: 1º porque o valor calórico é elevado e 2º, dependendo da técnica cirúrgica, poderá haver Síndrome de dumping. No caso da cirurgia de Capella, às vezes o consumo de 01 bala pode desencadear a síndrome.

SINDROME DE DUMPING. É decorrente do esvaziamento rápido do conteúdo do estâmgo para o intestino. Causas: ingestão de líquidos com as refeições e ingestão de açúcar e gordura. Sintomas: náuseas, cólica, diarréia, mal estar geral, sudorese, tremor, palpitações.

O RITMO DE EMAGRECIMENTO. A perda de peso é muito intensa principalmente durante as duas primeiras semanas após a cirurgia. O ritmo acelerado de emagrecimento continua a ser observado até o terceiro mês e, a partir de então, passa a ser mais lento. Este é um processo natural de adaptação fisiológica que faz com que o organismo passe a gastar menos energia diariamente para evitar que a perda de peso rápida e permanente leve à desnutrição e aos conseqüentes riscos à saúde como a queda da resistência à infecções, desmineralização óssea, dentre outros. A melhor forma otimizar o emagrecimento nesta fase é a atividade física regular. O exercício faz com que o organismo gaste mais energia, o que ajuda a perder peso, além de trazer uma sensação de bem estar e relaxamento. Entretanto, deve-se procurar orientação médica para a avaliação do momento adequado para iniciar o exercício e também para a escolha do melhor tipo de atividade a ser realizada. Não é recomendado retornar à dieta líquida para emagrecer mais, pois este tipo de prática nesta fase pode debilitar seriamente o organismo.

A NECESSIDADE DO USO DE COMPLEMENTOS DE MINERAIS E DE VITAMINAS. Toda vez que as calorias da dieta são inferiores a 1250 Kcal ao dia é necessário complementar vitaminas e minerais. No caso da cirurgia bariátrica, o valor calórico da alimentação se aproxima de 350 kcal nas primeiras semanas e continua inferior a 1250 kcal no mínimo até o sexto mês após o inicio do tratamento. Principalmente durante este período, a complementação é indispensável. Vitaminas e minerais não produzem calorias, portanto, não engordam.

ALIMENTOS QUE PODEM ENGORDAR. Um consumo alimentar excessivo semelhante ao anterior à cirurgia não ocorre porque o estômago não pode receber quantidade elevadas de alimentos. Entretanto, a alimentação em pequenas quantidades pode Ter um valor calórico alto quando é rica em lipídios (gorduras). Toda gordura tem um valor calórico elevado independente da fonte (óleo, azeite, margarina, manteiga) por isto é sempre recomendável evitar o consumo habitual de receitas que levem gordura na sua preparação.

MASTIGAÇÃO. Se engolir os alimentos sem mastigar bem, você pode bloquear a pequena saída de seu estômago. Isso pode causar dor, desconforto, náuseas e vômitos. Seu estômago pode até mesmo dilatar e romper a linha grampeada. Lembre-se sempre

  • Leve de 30 a 45 minutos no mínimo para realizar cada refeição;
  • Mastigue cada bocada de 20 a 30 vezes, até que os alimentos formem uma papa em sua boca.
  • Corte a comida em pedaços pequenos. Isso ajuda na mastigação e torna a refeição mais lenta.
  • Use talheres e pratos pequenos. , como colher de chá ou sobremesa. Isso ajuda a comer quantidades menores de alimentos de cada vez e diminui a velocidade de sua refeição.
  • Explique aos outros porque você deve comer lentamente. Dessa forma, eles não irão apressá-lo.
  • Não fique conversando durante suas refeições.
  • Não “pule” refeições. Quando não faz uma refeição, você fica com muita fome na próxima. Com isso você perde o controle e acaba comendo muito rápido e se esquece de mastigar bem os alimentos.

NÁUSEAS E VÔMITOS. Um problema comum ao ingerir um pouco a mais do que a capacidade de seu estômago são as náuseas e os vômitos. Eles são causados pelo estômago pequeno, que pode ser sobrecarregado por pedaços de alimentos que não foram bem mastigados. Sempre preste atenção aos sinais de saciedade de seu corpo. Você pode sentir pressão ou estufamento no centro de seu abdômen ou pode sentir-se nauseado. Qualquer que seja o sinal PARE DE COMER! Uma bocada a mais pode causar dor e desconforto. Mesmo que você não sinta rapidamente os sinais de saciedade, você deve medir o tamanho de suas porções. Após alguns meses de cirurgia, muitas pessoas conseguem ingerir aproximadamente ½ copo ou 120ml de alimentos em 30 a 45 minutos. No caso de sentir desconforto, náuseas ou vômitos, tente identificar a causa, fazendo as seguintes perguntas:

  • Comeu muito rápido ou não mastigou bem os alimentos?
    Comeu demais?
  • Ingeriu líquidos junto com as refeições ou logo após?
  • Estava distraído ou conversando durante sua alimentação?
  • Comeu alimentos difíceis de digerir, como carnes duras ou fibrosas?

Essa avaliação irá ajudá-lo a fazer mudanças necessárias para a próxima refeição. No caso de apresentar vômitos durante o dia inteiro, pode ser que a saída de seu estômago esteja bloqueada. Nesse caso, evite alimentos sólidos e tome somente líquidos claros, como sucos, caldos, gelatinas e chás.

Gradualmente, adicione alimentos pastosos e depois os normais. Se persistirem os sintomas entre em contato com seu médico e sua nutricionista.

ALIMENTOS QUE DEVERÃO SER EVITADOS NOS PRIMEIROS 3 MESES PÓS – OPERATORIOS. Café, chá mate, chá verde, pimenta, sucos industrializados em pó, condimentos químicos (Knor, Sazon, mostarda, ketchup, molho inglês), leite e derivados de vaca, açúcares (chocolate, balas chicletes, doces em geral), frituras, carboidratos (em excesso), Bebida alcoólica, fumo, refrigerantes, água gaseificada.

A orientação nutricional no período pré-operatório tem como objetivos preparar o paciente para o programa de alimentação do período subseqüente à cirurgia e promover uma reeducação alimentar que possibilite a perda de peso sem que desenvolvam-se deficiências nutricionais.

Dependendo do tipo de técnica cirúrgica adotada o volume inicial aceitado pelo paciente varia entre 50 e 500mL por horário e a consistência da dieta é líquida para que o estômago não seja muito estimulado. Açúcar, gordura e laticínios são excluídos da dieta por aproximadamente 5 dias. Alimentos bem aceitos são água, água de coco, bebidas isotônicas, chás, sucos de frutas naturais coados, caldo de vegetais coados e gelatina diet.

O seu objetivo deve ser alcançar e manter um peso estável e mais saudável. O foco é uma alimentação equilibrada e atividade física regular. Para tal, é essencial que você reconheça que o sucesso da cirurgia é possível somente com a sua completa cooperação e compromisso com as mudanças necessárias, que acontecerão com o apoio da equipe multidisciplinar. Estas mudanças devem permanecer por toda sua vida!